quarta-feira, janeiro 03, 2007

MÁRIO SACRAMENTO – um «Ílhavo» de eleição ,no séc.xx






Mário Sacramento nasceu em Ílhavo ,na casa da sua família ,ali ao Largo do Oitão ,em 7 de Julho de 1920.


Filho de Artur Sacramento ,comissário de bordo na Marinha Mercante ,homem muito culto, possuidor de um grande carácter e sentido de vida, figura altruísta e solidária – será um dos primeiros Comandantes dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo - ,e de Rita Sarmento , cuja família tinha pago pesado tributo nas lutas Liberais ,em que dois dos seus tios foram enforcados ,em Aveiro, pela camarilha absolutista .O convívio desta família , muito próxima de figuras proeminentes nas lutas por uma nova ordem cujos princípios de liberdade .igualdade e fraternidade se foram beber à Revolução Francesa, de onde se destaca o tribuno José Estêvão cuja esposa era madrinha de D Rita Sarmento ,teria certamente influência no jovem Mário, que habitualmente passava grandes temporadas em casa da família materna, como recorda no seu « Avé Aveiro »:
“Sob os lampiões dos Arcos, Rua dos Mercadores abaixo, vogavam bateiras conduzindo os teus íncolas (ia a dizer os teus doges) às soleiras das portas. E eu batia palmas de menino com brinquedo, na janela da avó. Casa escura, com mofo a rato, olhares do José Estêvão no louceiro antigo, um opúsculo do Marques Gomes a dizer-me que um tio de antanho fora decapitado pelo D. Miguel, grades de pimpons nas sacadas de pedra antiga — em que um dia entalei a cabeça (para retomar essa tradição, quem sabe?), tendo sido liberto, depois de muito suor e ferros, por um serralheiro do Mindelo”..


Desde miúdo Mário Sacramento atira-se á bem recheada biblioteca que seu pai , metódica e permanentemente organiza , embrenhando-se na leitura de livros onde Mário Sacramento vai adquirir uma notável cultura .Que desde muito cedo é reconhecida e exaltada pelos mestres com quem contacta , seja na Escola primária com Guilhermino Ramalheira que lhe atribuiu o primeiro lugar de todos os alunos que lhe passaram pela mão na sua carreira docente ,quer por José Tavares e Agostinho da Silva, que reparando - deslumbrados! - no jovem Sacramento e no jornal que edita sozinho -“O Furão”- ,logo o convidam -tinha ele imberbes catorze anos -para Director do Jornal do Liceu de Aveiro –A Voz Académica –onde vai ter como principal colaboradora aquela que seria mais tarde a sua mulher ,companheira de uma vida ,a escritora –Cecília Sacramento .

Mário Sacramento aprende, autodidacta , o Esperanto ,língua que então se sonhava vir a ser ,língua Universal ; e, jovem ainda, logo em Ílhavo cria, nos Bombeiros, uma turma aberta para divulgação da mesma, que acreditava , seria a ante-câmara para a união dos povos sob o fim ultimo das teorias marxistas da igualdade –direitos e de oportunidades.
Desde cedo nele se descortina um ousado interveniente de elevada capacidade reflexiva –hiperelucidez - ,vertida em inflamados discursos ,conferências e tertúlias académicas - tudo que servisse de veiculo a uma divulgação pedagógica que lhe era particularmente inata -em fazia, intensa e assumida propaganda de ideias esquerdista de que então o Jornal «Diabo» era, a mais destacada Tribuna nacional.
Em 1938 (dez de Junho) a PIDE prende-o pela primeira vez ,ao mesmo tempo que proíbe a publicação e circulação da revista «A Voz Académica» .Tinha tão só dezoito anos, mas a prática, o empenho e aceitação das teses vertidas tão precocemente começavam a ser perigosas –já! - e a importunar célere o regime Salazarista, que antevia com perspicácia - diga-se - ali se encontrar um potencial subversor do regime fascista .

Contrariado na sua vocação pelos Pais ,Mário Sacramento irá estudar Medicina para Coimbra ,e depois, completar em Lisboa (1946) o curso. Adere ao M.U.D juvenil, movimento de unidade visando o derrube do regime Fascista, o que irá levar a P.I.D.E a intensificar a vigilância , a seguir todos os seus passos ,pronta para cercear este empenho que sente provindo de um ideário imparável ,humanista, em busca de novos valores.

A sua vocação para a escrita salienta-se em 1945 ,quando apresenta nos Jogos Florais da Universidade de Coimbra o livro «Eça de Queiroz –Uma Estética de Ironia» ,distinguido desde logo com o prémio Oliveira Martins .Neste trabalho Mário Sacramento segue o percurso de Eça , (autor a que o ligavam afectos familiares próximos e o exemplo do avô daquele ,o Conselheiro Queiroz ,que em 1828 levantara o povo de Aveiro pela afirmação suprema da Liberdade ) ,procurando dilucidar sobre a influência que nele teria tido a vivência de Coimbra –cadinho onde se fundem ideologias e novos rumos do pensamento – e descobre o genial escritor realista, “impressionado execravelmente com o que encontra em Lisboa” ; o realismo com que Eça combate o romantismo acomodado de Camilo, e em que Mário Sacramento vê o resgate do séc XIX ao servir os propósitos da revolução ,das mentes e espíritos - a sua evolução ,os caminhos ,as mutações no pensar –tudo é dissecado por M.S.,que salienta a ligação entre a arte-escrita e a acção .E que nos vai descobrir o momento exacto em que Eça (na carta a Carlos Mayer) ,parece “pegar pela primeira vez na pena para escrever genuinamente com ironia “. A mesma «ironia» que seguirá Mário Sacramento vida fora “como arma de arremesso” para denunciar a opressão e lhe resistir ferozmente.

Terminado o curso, vem exercer a profissão para Ílhavo - onde de imediato tem casos clínicos notáveis que o fazem sobressair da mediania instalada – abrindo consultório na Rua José Estêvão onde passa a viver com a família, local que tanto vai servir de ponto de reunião a políticos do contra –e por isso sempre atentamente debaixo dos olhares da PIDE - como local de atendimento para os mais necessitados que, graciosamente –e tantas vezes ainda reconfortados com alguns tostões no bolso para a compra dos medicamentos –,dali saíam bem agradecidos, reconfortados física e materialmente .E que, por vias disso, o irão glorificar ao atribuindo-lhe o epíteto de «Médico dos Pobres» ,como passa a ser conhecido. Mário Sacramento rejeita definitivamente todos os laços de pequeno burguês -grupo social de onde proviera - que deixará , clara e definitivamente ,assumidamente ,para trás ..1953 leva-o de novo aos calabouços políticos ,onde nos lúgubres interiores irá sofrer as sevicias da tortura do sono ,ou do plantão de estátua .Responde ás agressões enviando escritos cheios de ironia á família sabendo que a primeira leitura será dos esbirros . E assim os aguilhoa .Resiste ,física anímica e ironicamente ,desesperando os esbirros. Aos Contos que envia aos filhos, fá-los acompanhar de desenhos . E na cela ,apesar dos livros de que lhe mesmo a consulta ,elabora um trabalho intitulado «Fernando Pessoa -Poeta da Hora Absurda » que será publicado em 1958. Um trabalho de que mais tarde, disse ,gostaria de refazer ,dadas as condições em que foi elaborado . Nele leva-nos à descoberta da essência comum entre o poeta e os heterónimos - embora, assuma serem individualidades diferentes -, a sua concepção geral da vida :– um beco sem saída ! ,onde Reis procura não se lembrar de que o beco pode não ter saída ;Caeiro até acha desnecessário saber se a há… ou não ;e onde Campos é o único a procurá-la , não pela saída e o que isso significará ,mas ,apenas e só, pela procura.
E põe-nos perante o logro que “reconhecido logo se aceita” ,pois, considera os ditos “ não como autores ,mas como Pessoa escreveu a Campos, a Caeiro ,e ou a Reis”.
O «tempo de Pessoa» –a hora absurda !- ,o cume do génio que nele existia, só poderia ser alcançado se, “absurdamente se invertesse ou alterasse o conceito de génio”

A actividade profissional segue os seus passos,recheada de algumas desilusões –patéticas e angustiantes -provindas da atitude corporativa dos colegas.
Em Ílhavo os «próceres» locais impedem-no de trabalhar na Misericórdia, tentando coarctar-lhe a carreira profissional. As denúncias de colegas e as maledicências empurram-no para o exercício médico em Aveiro (1955) ,onde se estabelece em consultório aberto mesmo em frente do Trianon ,café onde diariamente reúne com a sua Tertúlia politico - literária ,sob o olhar e ouvidos dos esbirros da policia politica do regime que, ávidos de presas, vigiam de perto ,nas mesas contíguas ,o grupo, sem por vezes se darem conta de que são identificados e, por isso mimoseados com a vulgata comum,da maledicência e brejeirice .O que não obsta a que ,nesse ano ,em 1955, voltar – por duas vezes - a ser levado para a António Maria Cardoso. O então inspector chefe dos esbirros pidescos, o grotesco Sachetti cujas origens se situam em Aveiro ,sabe do perigo que representa Mário Sacramento e ordena a sua vigília dia e de noite, atribuindo-lhe uma perigosidade preocupante para o regime ,pois, Mário Sacramento ao mesmo tempo em que se assume intelectual da mais fina água ,embrenhava-se numa tenaz acção politica, de uma maneira entusiasta, pedagógica ,incitadora e aglutinadora, que preocupava o esbirro .
Isso não o impedirá de ser o obreiro que torna possível, em 1957, o Iº Congresso Republicano ,de que foi o Secretário Geral.
Em 1959 publica «Ensaios de Domingo» e inicia com Óscar Lopes -intelectual de quem ideologicamente se manterá muito perto – uma colaboração literária no jornal «O Comércio do Porto».
Em 1961 ,como bolseiro do Estado Francês, vai para Paris ,onde no Hospital de St. Antoine tira a especialidade de gastro –enterologia , apesar de gravemente doente, pois que durante a estadia –por deficiência alimentar e ou excesso de labor - contrai a tuberculose .Por ousada ironia, uma das doenças que com mestria soube combater nos seus primeiros de prática clínica.
Regressa em 1962 , para voltar a ser preso, ainda ,nesse ano .Em 1966 assume-se critico de literatura colaborando no caderno de Literatura do «Diário de Lisboa» ,e também, na revista «Seara Nova». Nesta colaboração destaca-se o debate sobre a procura de uma «Estética neo Realista» ,e a inventariação dos autores nacionais que a perseguem ;era importante para Mário Sacramento, encontrar nas diversas propostas artísticas –poesia ,teatro ,a novela , o romance ,a literatura juvenil e feminina, ou outras formas de expressão da arte - um retrato das preocupações sociais ,um conflituar com a realidade , um assumir objectivo de uma vivência “ideo-sensivel” na posição social dos autores na neo -revolução (que teria de ser inevitável).E será mesmo em 1967 que publicará «Fernando Namora -A Obra e o Homem» logo seguido de «Há uma Estética de Ironia?»,em 1968.
Perscrutando no percurso do escritor Namora em via sacra pelo mundo rural, no exercício da profissão de médico ,Mário Sacramento vai explicar a evolução criadora de Namora nas deambulações sociais do autor até chegar ao estádio de autor neo-realista .

Como critico - e porque a crítica ao contrário da história é do que é ,e não do que foi – M.S tem de se integrar com o tempo e de se assumir com o momento histórico em que vive. E fê-lo em todas as vertentes e sentidos ,e por isso ,talvez vivendo-os como se lhe impunha ,mais do que escrevê-los ,como desejaria. Mário Sacramento foi ,isso mesmo, um autor do neo-realismo, “fiel a um humanismo concreto” ,em que dilacerou uma vida.

O Concilio Vaticano II com as suas conclusões e indicações que pareciam definir uma evolução no pensamento da Igreja ,mais aberto e mais preocupado ,mais suportável para o ateu assumido , levam Mário Sacramento a procurar nas páginas do jornal«O Litoral»,interlocutores para com eles estabelecer um dialogo com o «credo», numa procura de pontos e empenhamento comuns ,apesar de tudo; artigos que, mais tarde –já depois da sua morte, em 1971 -, seriam reunidos em volume publicado sob o titulo «Frátia –Diálogo com os Católicos ».

Morre em 1969 , nas vésperas do 2º Congresso Republicano de que, uma vez mais, foi o principal obreiro –e cujo requerimento foi ainda por ele redigido - que se viria a realizar sob o patrocínio do seu espírito que do primeiro ao ultimo instante pairou no «Teatro Aveirense»,onde teve lugar .
Salazar, é certo, estava moribundo, politicamente morto ;mas Mário Sacramento já não veria a queda do regime para a qual tinha sido um dos mais férreos contribuintes ,um dos mais entusiastas e dos mais lúcidos combatentes, que infatigável e persistentemente ousou lutar contra tudo quanto de retrógrado representava e continha , o caduco regime .

Mário Sacramento adivinhou na sua «Carta Testamento» redigida em Abril de 1957 ,em que lúcida e certeiramente faz uma premonição rigorosa do tempo sobrante ,que certamente lhe iria faltar, para ver a queda do regime salazarento.
Não viu o que quis ;mas quis o que viu “ disse-nos nessa missiva em que ,dum modo terno mas incisivo , nos lança um aviso:

“Façam um Mundo melhor ! Não me façam voltar cá”


Senos da Fonseca
2006

NB – Estas notas foram extraídas da Palestra realizada em 1970 no Illiabum Clube ,na evocação de Mário Sacramento ,e vão ser incluidas na Colecção «Figuras de Ílhavo».