segunda-feira, janeiro 29, 2007

A ADOPÇÃO EXIGE PRÉVIA FORMAÇÃO -INFORMAÇÂO




Tenho vindo a seguir com especial interesse, o caso da E…, menina que se vê envolvida e desrespeitada por toda uma sociedade - onde se incluem «Pais» ,Tribunal ,Sociedade da Informação e Tribunas Sociais, que parecendo -e certamente querendo - protegê-la, parecem não perceber que quanto maior for a exposição pública do caso ,maiores serão as atenções (futuras) centradas sobre a mesma , o que poderá vir a transformar a sua vida num pesado fardo ,difícil de suportar . O que, à partida , ninguém certamente deseja .

Procura-se, nas noticias que vêm sendo dadas , encontrar um culpado para todo este processo .Mas esquece-se o erro capital, fulcral (!) e decisivo para que ,um caso igual a muitos outros descambasse neste exibicionismo exacerbado e algo doentio , que teve a sua origem, não hoje ,mas no procedimento acontecido há já uns anos , infelizmente muito vulgar no regime de adopção vigente ( apesar das continuadas melhorias que vêm sendo introduzidas ).

Adoptar é um acto de dádiva por excelência, provindo de suprema disponibilidade para amar ; mas –e isso é o que o distingue e singulariza -, um acto profundamente racional .Não pode, por isso, ser visto - nem praticado - como uma via egoística de nos ressarcirmos de algo -por nossa culpa ou por culpa estranha – que não conseguimos alcançar .Mais que consequência de um acto biológico -decidido ,consentido ou fortuito – a adopção exige profunda e antecipada reflexão, compartilhada em prévia e amadurecida interiorização e por isso afastada de toda e qualquer impulsividade momentânea, aceite como decisão irreversível, a dois. E irrevogável .Um casal predisposto à mesma, terá de resistir a todos os impulsos: lógicos - ou ilógicos -, fáceis ,questionáveis ou inquestionáveis , que a ponham em causa, A responsabilidade ,na adopção ,é imensamente maior ; assumida a dois – em profunda convicção - não é (facilmente) aceitável submetê-la a escrutínio de conveniência, provindo de questões factuais futuras ,entretanto advindas .

Irrevogável para os adoptantes , que não para os adoptados !

Um dos principais –e muitos há – pressupostos na adopção , é que quem adopta tem o dever de estar profundamente consciente – e por isso assumidamente disponível – para um possível acto de «ingratidão», e ou, de «incompreensão» .Deve viver essa possibilidade, tudo dando ,mesmo na probabilidade de nada receber. Em total abertura e disponibilidade ,(sempre ) preparado para a eventualidade do reencontro do adoptado com os laços de sangue, que é sempre traumático, para todos .(Curiosamente - ou talvez não! - dos vários casos que conheço , os menos traumatizados são mesmo os «partenaires» do acto da concepção) .Interiorizando que se isso, porventura venha a suceder – com final feliz! –a sua missão de adoptantes terá sido cumprida com pleno êxito. E isso é, o verdadeiramente importante .

Sou um Pai adoptivo - pleno !- há cerca de quarenta anos .E agora, numa outra posição de «avô adoptivo» - recente e restrita , por tácito acordo de todas as partes -tenho plena consciência dos inúmeros problemas que a questão da adopção coloca e, para a qual ,reconheço ,não estava minimamente preparado. Julgando tudo saber ,sei agora que pouco -afinal! –sabia. Só o que aprendi de experiência feita . E olhando para trás ,se aceito que ao tempo se poderia justificar um certo desconhecimento ,hoje, o mesmo, é imperdoável e incompreensível. Grave é que não se colham lições para evitar que tão magno problema não corra por outras veredas ,mais desimpedidas e mais confortáveis, menos acidentadas .Evitar-se-iam ,desagradáveis erros .

Ora ,por aquilo que me é dado ler ,ninguém envolvido neste caso da menina de Torres –Vedras, um caso igual a muitos outros -ou será que andamos distraídos (?!) - parece estar, minimamente, preparado para o assumir em pleno e lhe dar adequado fim :

É verdade que Tribunal não sabe lidar com casos, onde a «razão» não está na « razão da lei» ,mas na «razão» de uma sábia interpretação do senso comum .Ali não era necessário julgar .O que era preciso era aconselhar - mediar .E não, agora ;mas no momento oportuno .Ora quando não se «aconselha» no momento oportuno ,depois, é tarde …ou até ,inoportuno .

Mas os Pais –sim! ,«todos Eles» - deveriam ter percebido :

O pai biológico

que mais importante que ser Pai «com direitos» ,o difícil , é ser Pai «com deveres».

E isso assume-se - é-se ! - desde a primeira hora ; e não só quando nos apetece …ou convém.

Os pais adoptivos ,

deveriam perceber o risco das suas opções , e não deveriam considerar como sua pertença o que será, mais tarde ou mais cedo, tão só ,uma escolha ; importante é garantir que a mesma –quando for feita - se realize na plena assumpção de liberdade .E se não há, agora, liberdade de escolha para a principal interessada ,consinta-se na liberdade de escolha partilhada em conjunto ,no superior interesse da mesma .Dia virá que todos sentirão a recompensa da dádiva, despojada de egoísmo.


Assim, parece-me, que antes do mais , o culpado é o sistema de adopção em vigor; falta uma clara preparação, um trabalho de formação – informação, feito obrigatoriamente junto de quem se predispõe a adoptar , para que , carenciados de afectos - a dar ou a receber - compreendam, contudo, a virtude ultima da sua missão apercebendo-se em profundidade e em toda a extensão , dos espinhos e dos riscos da mesma .
Se essa acção tivesse sido feita no caso presente ,no momento próprio – ter-se-iam evitado muitas atitudes, agora descaradamente egoístas.
De todos …
pois há soluções maleáveis e atendíveis que logo de inicio poderiam ter sido postas em prática, evitando a exposição na praça pública, que nada de bom trará para todos
Soluções que não dando plena satisfação a uns, respeitariam a questão formal de uma decisão Salomónica . No caso presente , não por desistência de uma parte em favor de outra, para bem da criança .Mas desistência - cedência - das duas partes , seguramente no superior interesse da criança .
Se informadas ,assim o não fizessem, algo estaria errado no que supunham ser amor pela mesma .
A decisão de «plenitude» ,pendesse para que lado pendesse , ali, era, logo à partida, impossível .Errada e egoísta, indesejável para a menina .A «plenitude» estava ferida de morte, era de todo impraticável . Racionalmente deveria ter sido procurado novo caminho .
O importante e essencial, era uma decisão acordada, que permitisse ganhar tempo suficiente para, quando adequado, a criança já adulta , pudesse , então, decidir por vontade própria, livremente .

Penso que os Pais adoptivos ,deveriam ter sido ,quem, há quatro anos , exigiriam saber das condições - e real interesse - do Pai biológico em (querer ?!)assumir, ainda que tardiamente , as responsabilidades –e direitos - que se propunham, eles, em exclusivo, querer assumir .Ora naquele momento –há quatro anos -havia um inultrapassável conflito de interesses, que só com cedências de parte a parte poderia ser possível de ultrapassar, em nome da menina .E sejamos francos ,nenhum Tribunal estaria em condições de o fazer em consciência plena ,justa . Impunha-se pois uma informação –formação no sentido de os aconselhar, perante as evidências, a sujeitarem-se - consentido - numa «restrição» à adopção plena .
Não deixando que o caso se enovelasse nas profundezas da burocracia ; e muito menos se virasse contra quem - não duvido – eles querem , para já ! mais do que alguém quer .A sua criança ,não de direito ,mas do coração .E essa é a posse maior.
Decida-se o que se decida – AGORA! -, a vida desta criança nunca mais irá ser, como deveria e mereceria, ser .

Senos da Fonseca