quarta-feira, dezembro 06, 2006

GENTES E COSTUMES …

A TRAGÉDIA DO CANAL DO RIO BÓCO….



Um dos acontecimentos, tão misterioso como brutal ,e simultaneamente inverosímil , um medonho e enlutado acontecimento da estória de Ílhavo , veio-me parar ás mãos durante a infindável consulta documental que me foi dado fazer ,a tão grandioso acervo. É ele tão violento e de contornos tão indizíveis, que espanta o epílogo do socialmente correcto proposto pelas autoridades de então que, não o sabendo explicar –ou até dele duvidando –entenderam, por bem , fazer desaparecer «para parte incerta», as suas infelizes vitimas, e anodinando os seus autores .Por vezes, dou por mim a pensar se não foi o mesmo, um fenómeno de hiperbolização demoníaca de um facto ,certamente acontecido ,mas cuja dimensão inicial foi ,por tradição oral passada de boca em boca , agerida , atingindo uma grandeza trágica, amarga, irracional .

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Os ílhavos eram gente de grande fervor religioso, como sempre aconteceu com comunidades piscatórias, mais tementes aos santos que à aspereza da natureza que defrontavam.

Não havia orago celebrado pela borda da ria , que não motivasse dia de folga das lides, e não impusesse uma ida de bateira, com a família e vizinhos ,para cumprimento das promessas que amiúde se faziam – que aquela vida era um cão - ao mesmo tempo que se aproveitava o folguedo para convívio ,ou para pôr em dia atrasado conversalhar com conhecidos de fora, em trautos feitos, vulgarmente, por entre o escorropichar de uns copos de vinho ,batidos de balcão em balcão, por entre as vendas do sítio.

Estávamos em 15 de Agosto de 1820.

De entre os oragos de reconhecido mérito - que festa de arromba elegia e glorificava - o S. Inácio , do Bóco ,assumia carácter de invulgar dimensão a justificar reiterada devoção e consequente visita. O seu altar, erecto em Igreja sita na colina que, subindo do cais do moliço albergava no cocuruto o burgo ,aposto logo ali ao dobrar da carreira da barca da «Forja» - em Fareja – onde , em tempos idos, fundearam as barcas e pinaças de alto bordo que vinham mercadejar às Gândaras – convidava a devota visita.

Num dos esconsos becos da chousa de Alqueidão, por onde se alinhavam tugúrios para abrigo de pescadores ,marnotos e saveiros ,os dias que antecederam a festa foram de intenso parlatório ,destinado a assumir presença, mas e também, perlengando sobre as vitualhas a incluir no farnel ,que se queria, coisa de regalo .

Chegado o dia, o « Zé da Preta» mai-lo «Thomé da Fidalgota» ,embarcaram amigos e familiares na chinchas que se haviam escorreitas de tralhas e estrafegos e onde se aconchegaram vinte e duas almas de fé ,desgarrando do cais da Malhada quando ainda o sol não despontava, aproveitando a maré que já montava; partiram alegres , folgazões e prazenteiros ,para uma grande jorna que ,parecia ,ser capaz de pôr ameno no estupôr de uma vida danada .
Eles a rigor :de calção branco largueirão que se estendia até ao joelho encobrindo perna tisnada, pelo sol e maresia ,barrete descaído sobre o dorso e camisão de linho aberto que deixava entrever o torso de gigantes da laguna ; elas de cara rija, onde fulguravam dois olhos em brasa, ardentes e brejeiros , engalanada por chapelinho de veludo preso á nuca por lenço de merino garrido , chambre branco cingido ao colo que pedinte de afago sensual reponta nas pregas do camisa floreada ,saiote de baieta descendo rente até aos artelhos ,escondendo a visão honírica de duas prendadas pernocas que vinham desafogar nas chinelinhas pretas ,cingidas aos pés de gaivina andeira, por cordão de abotoadura.

A aragem do norte cedo lhes permitiu a demanda e o desembarque no cais do moliço ; sem delongas – que santos não esperam !- foi (logo) tempo de desembarque e de monta por caminho directo, até à Igreja, ainda a horas de ouvir a santa missa ,desbravar o terço benzido, deixar uma esmolna e cumprir o prometido .Satisfeita a obrigação da fé, era tempo de lograr a sombra de uma oliveira, que por ali eram fartas , e desempalmar o escabeche mai-las solhas bem emparadas na molhenga , que iam assim cumprindo «o antes» , até ao momento de desenfardar o capão que ali jazia ,cumpridos que estavam com a dignidade de quem se sente talhado para o fim ultimo do sacrifício, seis meses de cuidada engorda, e que, como «feito» da bem acerejada assadura exibia um jalme de escodear sem demora ,pela fragrância divinal que do sacrificado provinha . O vinho ,em reponta da maré ,corria caudaloso pelas gargantas ressequidas que dias de sóis estivais ou de noites de suão tórrido, exsudavam estas gentes da laguna. O Bóco, situado nas faldas das bairradas, era sitio privilegiado de boa produção avinhada, e, nesses dias, aproveitava-se a visita para da mesma se fazer adequada publicitação .Assim ,não raro, excedia-se o que seria adequada emborcadura ,para cedo se atingirem limites de comportamento pouco adequados que, por norma, descambavam em confrontos violentos –verbais e ou físicos - pelos mais fúteis motivos.

Vista a procissão ,feitas as ultimas vazaduras nos descansos dos tascos do sítio , anunciado lá para as bandas do mar o lusco-fusco da noite estival, que embora preguiçosa vinha chegando, levantaram-se as velas que era hora de voltar à vila ,pois que ao outro dia, madrugada ainda não acordada ,ao primeiro trilo de maçarico cantador , era hora de botar o botirão .

Chegados lá para as bandas do pinhal da água fria, o vento tornou-se instável ,prenunciando doido corropio que impedia a boa singradura ;as mentes estavam toldadas demais para lhe encontrar o jeito bom, para nele navegar ; e é então que numa golfada rija emborcada pelo través, que a «Preta» vai direito à «Fidalgota» e lhe entra pelos cavername adentro, levando tudo á sua frente ,bico da proa embatendo com violência na cabeça da Zefa, embarcada na «Fidalgota» ,matando-a de imediato .

Foi o fim ; gerou-se uma encarniçada luta mais parecendo uma verdadeira abordagem de corso, com o mulherio em vozeria espavorida ao ver as naifas logo desembainhadas pelos seus homens ,que, ébrios do tinto e da odiosa vingança, procuravam sitio e carne por onde se espetarem .Uns, nos conveses das embarcações , outros já na água aonde tinham vindo parar após embate ,todos pareciam esquecidos do semelhante «amigo e vizinho» ,que se tinha, instantaneamente, transformado em figadal inimigo de que só a morte permitiria livração .

Foi uma tarde ensombrada de sangue ; vinte e uma vidas ficaram esventradas ;umas dobrados sobre a amurada escorrendo para a laguna enquanto esbracejavam nos estertores da morte; outras, boiando sobre as águas da ria que desciam para o mar, acompanhados pelas águas tintas de tanto sangue esvaído .
Apenas um, de entre os romeiros do Stº Inácio , lograria escapar com vida .
À noite, temendo vingança de vizinho ou familiar tomou lugar numa enviada de partida para Setúbal e lá escapou, a fim mais que certo .

O desembargador ao outro dia logo mandou uma patrulha para averiguação do desacato
No simples relatório que lhe chegou ás mãos ,apenas constava :

Das vinte e uma pessoas do foral de ílhavo(sic) desaparecidas , nada se sabe, senão o terem-se ausentado para parte incerta”.

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E assim se deu como (legalmente ) encerrado, e sem identificação de culpados ,um dos piores acontecimentos de sangue fratricida vertido por ìlhavos



ALADINO