sexta-feira, outubro 13, 2006

UTOPIA …OUTRA VEZ …E SEMPRE


Volta não volta lá vem a conversa da utopia.

Assunto sempre para esclarecer, com o fito de sabermos se ainda resta um pouco da mesma em nós ,depois de passarmos por este agreste vale de lágrimas .

Henrique VIII depois de ter dedicado um carinho profundo e uma admiração total por Tomas Moro ( Thomas More) , quando este não aceitou o divorcio (real) daquele com Catalina de Aragon ,e posterior casamento com Ana Bolena ,e em consequência censurou ao Rei o seu afastamento da Igreja de Roma para se auto proclamar cabeça da Igreja de Inglaterra, não esteve com mais delongas , condenando More à morte por acusação de « traição» (enforcamento e esventramento) ,depois piedosamente (?!) comutada para decapitação –vá lá

Moro , um letrado superior ,senhor de uma invejável cultura latina , predestinado a exercer qualquer actividade no campo das Leis ,ocupou altos e distintos cargos como diplomara, Administrador da Universidade de Cambridge , presidente da Câmara dos Comuns e Chanceller Real (equivalente a Primeiro Ministro).Foi uma das maiores e mais sólidas personagens do período da história Inglesa no tempo da sua separação com a igreja de Roma. Mantendo a sua posição rebelde –quando bastava renunciar e voltar usufruir de todas as distinções reais – Moro defendeu-se com serenidade e até com humor das acusações tramadas pelos seus detractores .Naquele tempo poucas foram as vozes que acorreram em sua defesa,para lá da de Erasmo que estava longe para ser decapitado ,o que não sucedeu ao bispo John Fischer- outro que o defendeu - a quem seria separada a cabeça cinco dias antes de igual procedimento sobre Moro .Hoje Moro é respeitado e admirado universalmente pela nobreza de carácter de quem assumiu até ao fim as suas posições de católico convicto.

Humanista convicto, escreveu diversas obras literárias de envergadura ,diários ,epistolas ,poemas e ,dentre as mesmas, merece especial destaque a sua “UTOPIA”- Del Óptimo esttado de la cosa publica en la nueva isla utópica”

E foi por aqui que retomei o tema .

A «ilha utópica» era o local onde um personagem inventado descreve o modo como se poderia viver num mundo prometido de plena felicidade .

Mundo onde não existia a propriedade privada, dividido em 54 cidades todas iguais onde apenas uma era diferente – A capital da Ilha .

Tudo era regulamentado por uma aceitação tácita, provinda da suprema sabedoria e da sujeição consentida a uma exigente moral colectiva.

Todos vestiam do mesmo modo ,trabalhavam as mesmas horas (seis diárias) nos labores agrícolas –muito embora fora delas pudessem e devessem entregar-se a actividades do conhecimento ,do intelecto .E era destes sábios que saíam os dirigentes eleitos por sufrágio indirecto .

Todos deveriam casar e procriar, embora aos «santos» mas não «sábios» se permitisse o celibato ;o casamento era precedido de um desnudamento de ambas as partes para que se pudessem apreciar mutuamente e assim aprovassem, sem enganos , a beleza do corpo do outro ;e para melhor acerto na decisão ,o casamento era precedido de um tempo de vida em união ,a fim de constatarem se os feitios eram compatíveis e capaz de promover a felicidade futura.

Religião era de livre escolha , não existindo qualquer tipo de obrigatoriedade ou até sugestão de credo ,para lá da crença em Deus e na vida extra terrestre .Muito embora se valorizasse o corpo e a saúde , não só se aceitava –como até se recomendava a eutanásia .

Utópico? Atentemos que todo este conceito de sociedade suprema , foi concebido cerca do ano de 1500 .Simplesmente espantoso! Moro tinha a largueza de horizontes infindos: os verdadeiros e o dos sonhos ;Verdadeira utopia .

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Seria esta sociedade assim desenhada, onde parece tudo tão certo e tão igual ,tudo tão homogéneo ,sem qualquer tipo de distinção, a sociedade do bem supremo ?... interroguei…

É que eu tenho certas dúvidas .
Aos vinte anos talvez me parecesse um conceito de elevada pureza material e espiritual.
Mas hoje o que me parece é que, a ser possível, seria terrivelmente chata e desinteressante ., retirando ao homem a capacidade ser diferente , e, até, o conhecimento da infelicidade necessário para descobrira outra face da moeda a felicidade. Conceder à vida uma capacidade de desconformação ;é preciso e salutar.

E com esta escandaloso comentário dei por terminada, mais este capitulo. Decididamente venho perdendo muito da minha utopia. Qualquer dia prescreve de vez…

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A propósito : foi confundindo este Tomás More com Thomas Mann (eswcritor alemão do sec XIX)- citando este por aquele - que o agora actual Presidente Cavaco Silva –ao tempo então primeiro Ministro de visita a Inglaterra –cometeu um lapso pouco consentâneo com a sua posição e que alguns ,então ,atribuíram à sua pouca cultura .
Crer ter Primeiro Ministros por obrigatoriedade cultos, neste País , isso é que será mesmo uma UTOPIA .

ALADINO