domingo, outubro 01, 2006

NO TRIBUTO A JOÃO CARVALHO..

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Fui ontem assistir ao inicio das actividades com que o CHIO-PÓ_PÓ , pretende homangear o João Carvalho . Ìlhavo primou pela ausência .Para mim esoperado .O que me espanta e indigna é que a Câmara associada à Homenagem ,não tenha sequer marcado a sua presença ,nem com um simples varredor .Palácios da cultura , feitospor incultos para incultos .É o que está a dar .FARÓFIA ..SÓ FARÓFIA .Cambada de paivantes !..-libera me Domine.

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Há tempos foi-me solicitado um tetemunho que focase o João...Fi-lo com todo o gosto .Aqui o insiro .

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João Carvalho

trouxe com a cédula de nascimento , registada em Ílhavo em 20.07.41, uma estrutura humana privilegiada , impregnada de um visceral húmus cívico. Entrou pelos umbrais da vida carregando o pesado fardo da inquietude, trazendo dentro, ajoujada, a necessidade de A ver pelos seus próprios olhos, e de A medir pelo seu próprio e esgotante esforço.

Felizes são as terras que acolhem no seu seio - ou melhor ainda - servem de berço, a figuras humanas (simples ou complexas - isso não importa assim tanto!) que da medula aos pés transportam consigo o sentimento vivo, essa necessidade vital de ser útil ao semelhante , tocados pelo condão de fundir o particular da sua vida no interesse geral da comunidade onde mergulham as suas raízes. A terra enriquece-se quando nela vingam seres que prestam importância «incomum» às pequenas ( grandes) coisas do seu dia a dia ,emprestando-lhes o fervor desusado do seu empenho E mesmo que a terra tenha hábitos de madrasta, tal, certamente, pouco importará para esses cuja «paga» é, tão simplesmente, a certeza do dever cumprido .João Carvalho,foi um cumpridor impenitente desse fadário .Direi que foi um puro nos «gestos» e na acção , dentro das naturais e normais impurezas da deriva humana.

Cedo assisti aos momentos da sua iniciática clubista , no Illiabum dos anos setenta , onde ousou afirmar - o que para «uns» pareceu desplante de protagonismo - querer «mudar as coisas »; objectivamente, tivemos por isso, pontos de concordância e de discórdia nos tempos em que me competia, a mim ,empurrar a« barcaça» do Illiabum, um pouco antes dela passar para as suas mãos. Mas - atente-se - a discordância não estava nos objectivos ou fins , mas no «percurso», no modo de os alcançar. Apenas, pois , frioleiras nos separaram que não o essencial, que esse, era o de fazer do Illiabum um instrumento de ousada intervenção na sociedade envolvente , concretizada das mais diversas formas e actividades, utilizando os mais diversos meios para a levar a cabo , não se esgotando ,só e apenas, na actividade desportiva ,claro, a finalidade primeira da razão de ser do Clube . Olhando para trás sinto um travo na boca - não sei se o João o sentiu alguma vez - o de ter andado a «borrifar» raízes secas , tentando em vão fazer estremecer consciências e vontades empedernidas – pelo egoísmo – , …sei lá !..., pregando no « deserto», aos peixes.
Que fique desde já claro : não fui um próximo do João .Isso desatrela-me duma possível «obrigatoriedade» de o ver de um só ângulo, numa só perspectiva, de onde ressaia o seu melhor «alçado» . O que sendo bom para mim – porque se não tivesse essa liberdade não o faria! - julgo que também será benéfico para os que me ajoujaram esta tarefa - que recebi galhardamente -, de sobre ele perorar um pouco, preiteando-lhe a memória. E será mesmo e só ,um pouco para o tanto que Ele justificaria (e mereceria…) ; primeiro, à falta de dotes para o fazer melhor –o que já era pecha suficiente - mas e também, pelo espaço, finalidades e intenção reservados pelos que, em boa hora - muito justamente !- pretendem avivar a memória do seu exemplo.
Limitado , pois , mas de boa fé , volto aos quesitos para afirmar :

O João ,foi um caminheiro infatigável ,um assumido andarilho ,um pirilampo saltando «desta para aquela» Associação , a elas «arribando»,não para perguntar «o que fazer ?» – antes fazendo! -, ainda que o acto de concretização da ideia tivesse de ser levado a cabo subindo congostas tortuosas em cuja beira se perfilavam escarpas traiçoeiras.
Ou prosseguindo por atalhos escorregadios, pejados de incompreensão por onde se esparralhava a avulsa ingratidão, atitude compulsiva e por isso habitual , das nossas gentes.
Nunca o vi , porém –como infelizmente é habitual nestas coisas Associativas - na borda do caminho estendendo a dextra à «mendicidade institucional» enquanto a canhota se prepara, lépida, para soerguer a chapelada reverenciadora .Não , nunca o vi assim; e por saber o que isso custa, tenho razões de sobra para testemunhar a honestidade processual em que se desenrolou a sua frenética actividade, levada a cabo de outro jeito bem diferente , incomensuravelmente sustida por contornos de muito maior dignidade ; - o de «carregar o andor », «pregar o palco» ,« fazer a festa» – e se necessário- « atirar os foguetes» para, terminada a folgança , «desmontar o acampamento» ,trocar o fato de obreiro pelo de «amanuense» cuidadoso, na contagem das moengas escassas para o tanto que era necessário ,mas que bem geridas -o João foi nisso particularmente cuidadoso - sempre chegariam para o essencial do objectivo traçado . Deduzo que levaria muito a sério os versos do XIO –PÓ-PÓ que um dia mandou reproduzir, onde« a brincar se fala bem a sério»:


“...”
HAJA FESTAS E VINHÓRIO …
…AS FONTES A DAREM VINHO..
O GRAMÃO DARÁ DINHEIRO… “….”

Era-Lhe intrínseca , julgo que imperiosa, a necessidade de se sentir útil, e sê-lo! de verdade -o que é bem mais importante -, nem que para tal fosse necessário, por vezes, desajustar padrões de modéstia , correndo o risco de se assumir o centro das atenções, mas e tantas outras , de sentir o opróbrio desqualificado mas opiniático , dos «zeladores» do templo ,que achavam que carregar uma mesa -ou um bácoro - era tarefa «deslustrante» para « galões de comandante »

Foi essa a forja onde malhou o «ferro frio da apatia congénita do ílhavo » em vivência ofegante , parecendo que o tempo lhe fugia - e fugiu mesmo! – o cadinho onde temperou a determinação de se dar á vida Associativa num verdadeiro fadário de «fazedor de acontecimentos». Deve por vezes ter-se sentindo , certamente , só , em tamanha tarefa ; ou –e não raras vezes -, mal acompanhado. Felizmente para ele, noutras – muitas! - , sentir-se-ia , estou em crer , confortavelmente rodeado por dedicados companheiros de jorna , fiéis colaboradores – hoje alguns daqueles que Lhe prestam homenagem – que certamente como homens de boas contas, sentem a amargura de não o terem ajudado , se possível, (ainda) um pouco mais .




João Carvalho percebeu, e desde cedo interiorizou a necessidade de um Illiabum que desportivamente desejava fosse grande, mas, exemplar na virtude do acolhimento dos mais novos no seu seio ; foi por isso «pregador tonitruante» da simples mas inquestionável verdade de “se bons seniores quiseres, dos infantis o trabalho te requer” dando-lhe exacta e continuada expressão quando, assumidos os destinos do Clube , dedicou a maior das atenções ,carinho e desvelada objectividade ,ao impulso metódico das Escolas de Formação de jovens jogadores, visando assim, a renovação continuada das equipas «maiores» . Verteu de dentro de si torrentes de inquietação quando colocado perante o propósito de uns tantos –para ele delirante - de se construir um Illiabum «começando pelo tecto» ; tinha –e sempre a manteve – a visão (correcta) de que era pelos caboucos (na atenta e dedicada cativação dos jovens ) que estaria a chave do êxito , com que seria possível manter dum modo sustentado –e se possível engrandecer - a imagem conquistada nos tempos (ainda então recentes) do passado .E que de outro modo , o futuro, seria incerteza que poderia levar ao descalabro .E acertou ,o que até nem era difícil…. O tempo deu-lhe inteira razão. Por isso, inteiramente justa, certeira e certamente intencional, esta evocação do seu «exemplo», agora que a sensatez parece regressar, e assim ,voltar a colocar o Illiabum , primeiro, no caminho da dignidade ,para depois ,se possível ,o alcandorar ,novamente, à galeria dos famosos da bola ao cesto. Eu sei –se o sei! - que com o passado «não se faz o futuro…»,ou que tal não basta para o fazer .
É certo :-mas com as lições reaprendidas ( nas virtudes e nos erros) talvez tenhamos maiores possibilidades de nos voltarmos a reencontrar e, assim , encarar o futuro dum modo bem diferente do presente ( já passado …)
Parece, felizmente , vislumbrar-se um retorno ao bom caminho. Não era sem tempo…





No aspecto desportivo ,é inultrapassável não falar dessa sua outra «excessiva» paixão , o Sporting, de que julgo, por absoluta ,total e inequívoca unanimidade ,foi eleito Presidente do Amigos Leoninos cá do burgo. Por isso o Illiabum ter-se-ia de aconchegar bem dentro de si, ajustando-se , partilhando com o Sporting o espaço disponível das suas acrisoladas paixões desportivas , «espaço» que era contudo suficiente para partilha , pois que o João, era homem de coração grande .

Por vezes , o João, tinha a «incapacidade» de não saber esconder –ou modelar - o seu feitio agreste , investindo pela incontinência do verbo contra os que , julgava , poderiam abastardar o que considerava serem os seus «princípios» , ainda que dos mesmos tivesse uma leitura particular , muito própria, pragmática , directa e escorreita. E porque não dizê-lo, muito pessoal , nem sempre dentro da total razoabilidade .Mas estava na sua natureza o confronto frontal, directo - e na hora !- , contra uma certa invídia circundante ,acéfala, patologicamente medíocre, que cultivava no «passado bolorento» o presente, que queria feito «de nada» . Julgo que o João Carvalho foi por vezes «condenado» à fatalidade de investir - mesmo se por vezes de um modo irreverente-, o que por vezes lhe acarretou a incompreensão de alguns, causando-lhe certamente ,momentos amargos de desânimo ..
Como simples mortal, não teve por vezes a impassibilidade para ser macio em todas as contingências ; e, claro , chegado ao termo de não suportar o aguilhão quando este mergulhando rompia os seus costados íntegros , soube sair com dignidade ,partindo para outras lutas que apelavam ao seu chamamento.
Ajudaria então, a carregar o saco das prebendas de solidariedade humana que se vertem em torrente caudalosa, ali para os lados do CASCI, a cujos corpos Directivos pertenceu ; lá , fosse qual fosse a tarefa , da mais trivial à mais complexa e exigente no esforço ,o João respondeu em todas as circunstâncias com uma atitude de entrega total ,voluntariosa , expurgada de qualquer finalidade que não fosse o estrito favorecimento aos que, dum modo ingente, precisavam do braço solidário . Residiu, a meu ver , nessa postura despida de interesses preconceituosos, a força inexpugnável de uma alma inquieta em fazer – fazendo - ,caracterizada pelo cunho de nobre sinceridade que colocava na prática do acto humilde de descer aos mais desfavorecidos.
Depois , irrequieto, deu por si a reeditar esse XIO-PÓ-PÒ , acto impar de sarcasmo ,critica e acinte aos políticos das promessas dos tempos que julgávamos passados , e que ,afinal, hoje ainda por cá moram :
- O bacalhau é o mesmo , o pataco é que virou euro …,
E O XIO -PÓ- PÓ pela sua mão alcandorou-se á posição primeira de um reavivador de cultura popular genuína ,viva , aglutinadora , postada na recuperação de usos , costumes e tradições do tempo antigo ( Tasquinhas ,Cardadores ,Malha ,Mercado etc etc ).E também no préstimo de homenagem a «ílhavos» que ilustram o nosso passado comum .


Foi assim o João :

Carregando sacos de equipamentos com os quais se preocupava como se tratasse de fatos para cerimónia requintada ; lavando balneários com a mesma determinação e empenho , com que meticulosamente congeminava projectos.
Vertendo malgas de suor de que sentiu a adstringência nos momentos de paixão explosiva , a exigirem-lhe mais do que o acto : - a constância de saber suportar os abanões impiedosos e tormentosos da jorna, na total – e por vezes abusiva - entrega de todas as cãs.
Mas estou bem seguro que no fim , embora exausto, sentir-se-.ia envolvido na doce sensação de que o esbanjamento de si consentido , era crédito suficiente para a divida contraída com a sociedade, saldando largamente a sua conta-corrente.



Hora pois de gratidão , preito e respeito ;gratidão por ter mantido vivo no Ìlhavo agreste ,a singularidade dos nossos valores ,que vindos de trás, hoje ainda nos enformam (para mal ou para bem, vá lá saber-se… ) ; preito á índole do Homem que lutou hoje aqui, amanhã numa outra paragem da «carreira do itinerário cívico» , sem desfalecer , para que o «mundo» que queria fosse diferente ; onde o egoísmo atávico dos conterrâneos, tivesse correcção e remédio ; respeito por constatar que muitos que o acompanharam, sentindo (hoje) a sua falta, resolveram singela -mas apropriadamente - recordá-lo na «casa» que dedicadamente serviu .É bom sabê-lo …

O João Carvalho viveu tempos de inquietude ; e se - ou quando - esteve no parapeito da janela de onde expectava a vida, saltou para dentro dela , não foi por outra razão que não fosse a de ser solidário com os que seguiam, já, na «marcha» .

Soube em constância , em todos os lugares ou cargos a que emprestou a sua assumida participação , ou na batalha de mudança de mentalidades , ou no compromisso generoso - onde por vezes a família ocupou , consentidamente e com companheirismo ,um lugar atrás do tempo – ser sempre igual a ele mesmo. Foi tão constante na dádiva, como fervoroso na crença de que as coisas tinham que mudar.
Foi “ dos que não viu o que quis” mas certamente sonhou com o que, um dia , há-de chegar.

S.F.
Fev 2006


ALADINO