quinta-feira, outubro 26, 2006



FAMA…. E PROVEITO






Depois de muita insistência , quebrei o hábito de me eximir e lá compareci a uma reunião que tinha em vista celebrar os Cincoenta anos da entrada na U,C.
O convite foi-me dirigido por uma colega (de então) enviado de Belmonte, e, depois de insistentes contactos do outros colegas quase que me forçaram a comparecer .Não gosto destas reuniões ;não porque não goste de conviver .Mas sinto-me chocado quando vejo pessoas de quem guardei imagens de juventude que retive e várias vezes chamo à memória ,e depois vou encontrá-las com o peso dos anos a ditar a sua Lei .E Eles também ,certamente, o fazendo a mesma avaliação a mim próprio .

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Chegado devo dizer que espantosamente não consegui reconhecer, uma sequer que fosse ,das colegas presentes .Sem duvida que no elemento feminino as consequências são mais devastadoras .Quanto aos colegas alguns mantêm traços de ainda fácil identificação (esta reunião era destinada a alunos que ingressaram na faculdade de ciências ,por isso raramente nos voltamos a encontrar ).E curioso foi verificar que quando nos identificávamos ,notei uma coisa espantosa : “OH! Senos –convém aqui dizer que nenhum me conhece por Fonseca ,o que não deixa de ser curioso ! – e aquela cena do "Esparteiro” .Um deles foi chamar a esposa para me apresentar dizendo-lhe “Olha este é que é o Senos de que te falo” .E logo a mesma se vira para mim e me atira “Então conte lá essa cena “ .
E o que é certo é que tive mesmo de a contar e até de tirar uma fotografia ,na célebre escada da porta do cavalo dos Gerais por onde o Esparteiro bem tentava fugir, e eu o não deixava .


Vamos lá à história


Eu era aluno do Esparteiro uma das mais conhecidas feras da Faculdade ,um solteirão impenitente e assumido ,um bom vivant a quem era atribuídas forte competências no domínio das ciência Matemáticas , e que era uma das principais barreiras para os alunos de ciências ,todos a passarem-lhe pelas mãos .Ora eu apresentei-me bem preparado a exame de Matemáticas Gerais, com objectivo de obter uma classificação dentro do pretendido, dada a importância que a mesma tinha na nota final..Meu Pai estava presente ,talvez por advinhar que eu traria uma boa nota e, assim ,poderia ele entrar em casa dizendo para a minha mãe “Afinal o rapaz também não é tão mau como Tu o pintas!”sabendo que a resposta era invariavelmente “repara na classificação que a Tua Filha teve …” Era assim uma pequena vingança de Pai babado que compreendia que a questão não se encerrava só e apenas nas notas .Havia vida para lá destas .

Adiante; desta vez as contas iam-lhe sair furadas .

Entrei na Sala e como ás vezes sucedia quando o Esparteiro estava com pressa para as caçadas ou pescarias ,e ou até para os namoricos, atirou-me com uma do chamado Tiro ao Alvo –pergunta que decidia continuar ou voltar para trás –e, obtida resposta pronta ,já no estrado lançou-me outra e logo terminou :”Estou satisfeito pode ir” .
Cá fora convencido que tinha por certo alcançado o meu objectivo, e como tivéssemos de regressar a casa e os exames se prolongassem , pedi ao Archeiro para me ir ver se sabia a nota –metendo-lhe vinte paus no bolso .Regressou bem disposto, sorridente e disse-me :oh Doutror –éramos todos doutores – pode ir que passou .Isso sei eu - retorqui - mas com que nota . DEZ, diz-me ele sorridente pensando que me estava a dar uma excelente novidade
.Foi como se tivesse sido atingido por um raio .Fiquei absorto ; siderado . E logo uma estranha e brutal fúria emergiu :”.Eu dou cabo desse camelo .Gritei” .E por muito que o meu Pai tentasse afastar-me ,resolvi dali não arredar pé e esperei pelo fim dos exames .A Malta mantinha-se por ali á espera da pauta e gerou-se estranho burburinho que chegou até lá dentro da Sala .O Esparteiro dá os exames por acabados e tenta escapulir-se pelas escadas do cavalo que vinham desembocar á Capela da Universidade ..Quando O Esparteiro com o seu assistente –o célebre imbecil ZEQUINHA Amorim – se preparavam para se escaparem pela escada ,agarrei-o pelo casaco ,quase o levantei em peso e com o dedo bem perto da sua cara insultei-o com tudo o que me veio à cabeça .Gerou-se uma total confusão onde o meu Pai procurava dissuadir-me –julgo que sem grande convicção –auxiliado por alguns colegas –muitos dos que agora me recordaram a cena. Aos empurrões o Esparteiro conseguiu finalmente chegar à sua arrastadeira Citroen e quando já sentado,julgando-se finalmente livre , ponho-lhe as mãos ao casaco e tiro-o cá para fora encostando-o ao carro ,mais parecendo um boneco nas minhas mãos que se tinham transformadas em tenazes . "Olhe .gritei-lhe … eu venho cá em Outubro e então vamos esclarecer isto .Seu garoto etc etc.


Na segunda época ,preparado para o exame –bem preparado claro – corria nas tertúlias desusado interesse pela cena que se adivinhava épica .O Esparteiro alvo de tantos ódios da rapaziada , tinha sido despido na Praça Publica .O Professor –a fera-que até tinha fama de valentão ,de conquistador imérito ,tinha se comportado como um poltrão cobarde .E nem queixa tinha feito do incidente .

Ora num dia em que me tinha deslocado aos Gerais para saber a data do exame oral , vestido muito simplesmente –naquele tempo só se ia a exame de capa e batina ou de fato e gravata- fui abordado pelo ZEQUINHA que me diz ;”O Prof Esparteiro ,pergunta se o senhor quer fazer o exame agora?” .
Hesitei :rapidamente o filme passou pela minha frente ;fazer exame sem assistência podia ser perigoso ; ficava sem apoio e ou até testemunhas de eventual ilicitudes .Mas ,também logo me passou pela cabeça que o ESPARTEIRO estava à rasca .E decido fazer o exame .Sozinhos os três na enorme sala ,o Esparteiro logo me pergunta :- O senhor está calmo ?;Claro respondi, mentindo .E atira-me a primeira –de borla –e logo a segunda ,fácil ,daquelas que se atiram para passar o aluno que veio recomendado .

E logo termina ; “estou satisfeito .Pode ir” .

- Alto aí- contraponho :o Sr Doutor espere aí ,mas eu quero saber com que nota ,não vá suceder como em Julho .

O Esparteiro ,com um sorriso malandro dispara :
-“Então quanto é que o Senhor espera….diga lá .E eu claro não me fiz rogado :- X.
Logo responde o Esparteiro (Manel) :”era isso mesmo que eu tinha pensado; pode ir”.E lá vim .

Foi uma desilusão para a malta ter perdido a cena pois antegozava com o espectáculo de circo ,já que alguns acreditavam que iria ser como no tempo romano e a coisa se iria decidir, comigo lançado às feras .

E já agora ;
A fama traz-nos quase sempre vantagens se bem administrada .No ano seguinte, aluno do Zequinha a Calculo de Probabilidades e Numérico , o dito, aquando do exame logo ia inquirindo : “o sr Senos está calmo ? está calmo? :Eu sei que o senhor sabe…adiantava" tremendo todo .E no fim a notita lá vinha muito superior ao que eu de facto merecia . .

Já na Faculdade de Engenharia , mais tarde no Porto ,viria a dar-se uma outra cena com contornos parecidos Fica para outra emposta .



Ò TEMPO VOLTA P’RA TRÁS…




Voltemos á reunião .Ás tantas sou abeirado por uma colega que não escondia os seus quase setenta anos .Disse-me ;”Tu não és o Senos ? ..
-Sou ;respondi .Desculpa mas não te reconheço …..Aliás ainda há bocado confessei não reconhecer nenhuma das colegas presentes ….

.-Pois ..é a vida .Olha eu radiquei-me nos Açores e fiz toda a vida lá …

-Olha –retorqui –nos Açores tínhamos duas colegas : a Isabel e claro a Célia .Esta soberba .Ainda agora quando vejo aqueles modelos na Televisão desabafo : estas escanzeladas haviam de ver a Célia «açoreana» .
E logo recordei :" lembras-te quando ela foi fazer Matemáticas ao Esparteiro ,e a vestimos de saia um bom palmo acima do joelho –ainda se não imaginava a mini saia- a a ornámos com um grande decote que a tornava uma verdadeira Sofia Loren ,mandando-a encostar-se ao bico da mesa" ?....O Esparteiro ficou hipnotizado e o exame foi feito sem ela ir ao quadro ,pois ele o que não queria era perder aquela visão onirica ,queria é que ela não saísse daí …Que mulher …fui dizendo já embalado , tendo bem presente a Célia que preencheu muitos dos meus mais agradáveis sonhos da Juventude .E ainda muitos, mesmo depois de nos perdermos no tempo e espaço .

- Olha a Célia sou eu …lança-me a rir …

- Raios partam !....Eu bem digo que não quero vir a estas coisas …P’ra que é que eu vim…

Não há mais Célia .Agora passa a haver uma simpática senhora de setenta anos na imagem que a substitui na memória deste «velhinho» da mesma idade ,que teima em alimentar-se de sonhos …

Perdida a virgindade ,pode ser que para o ano volte .





ÍLHAVO TERRA DA LÂMPADA

ALADINO