sábado, setembro 30, 2006

LENDA DA TERRA DA LÂMPADA



Há muitos…. muitos anos ,tantos que já ninguém o sabe ao certo ,«aconteceu» em Ìlhavo uma história , que se tornou lenda …

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Era uma vez …

uma Terra que desde menina viveu junto á água ,que primeiro era a do mar e depois ficou transformada em ria quando as areias cresceram e os pescadores atrvessaram o Prado e chegaram à Costa Nova, à pesca da sardinha .
Como todo o «gentio» do mar , pescadores ou mareantes, sempre os «ilhavos» foram mais tementes a Deus que a esse « cão » danado do mar, quando enraivecido, parecia querer tragar os seus frágeis barquitos onde ganhavam o pão para os seus .Era nesses momentos , que o arrais Ançã lhe gritava :
«Ah!... danado, se fosses d’aguardente bebia-te só de um trago!» .E logo o mar parecia amedrontado com o desafio do arrais gigante , e amansava, recuando .Mas com Deus não se brinca ,ou ofende , e os «ílhavos» , criaturas de grande fé muito embora confiassem nos «seus arrais»- que não havia outros de tal «igualha» por essa costa abaixo - ,quando chegados os momentos de aflição ,em voz baixa ,faziam as suas promessas ao S Pedro da sua devoção que na Igreja da santa terrinha, no altar, atento , velava pelas suas vidas .

Apesar da Vila ser naqueles tempos idos , pequena , já desde os nossos primeiros Reis tinha uma igreja importante ,vistosa e imponente , que era pertença da Coroa .Os pescadores e famílias , principalmente o «mulherio» , eram muito religiosos, indo diariamente á missa logo de madrugada ,levando consigo , sempre, uma esmola que entregavam às Almas para protecção dos seus .Esta Igreja desde muito cedo passou a ser das mais importantes e mais ricas de toda a região de Aveiro ,tendo valiosas imagens de Santos e ricas peças de ourivesaria que eram muito faladas e, por isso ,também muito cobiçadas.

De tal modo que aquando das invasões Franceses ,os soldados do General Junot invadiram –na para lhe roubar aquelas riquezas, que sabiam, lá existir .

Conta-se ,então, que só uma rica Custódia de ouro - que hoje ainda existe –e uma valiosíssima Lâmpada (candeeiro do tecto) de prata se salvaram ,porque um tal Malaquias -O Raposo- , chegando à igreja antes da soldadesca francesa, as levou consigo e as enterrou. Só passados muitos anos, vendo que o perigo tinha então passado, resolveu desenterrá-las para as entregar ao Prior, que muito agradecido pela esperteza do acólito, logo mandou preparar grande festa para celebrar o acontecimento do retorno das valiosas peças ,festa que ,anunciada pelos párocos das redondezas prometia foguetório de arromba, como era costume ,o que fez acorrer á Vila muitos estranhos para admirarem os tesouros que voltavam a ser expostos .



Andara o povo em grande folgança, havia três dias , com a Igreja toda «aperaltada com vestes de gala» para mostrar as relíquias a quantos as quisessem admirar ,um mar de gente .
No final da festarola , era já segunda feira ,dia para estas gentes voltarem à labuta diária – depois da missa da madrugada , ainda o sol não nascera, na Igreja apenas algumas beatas que ouvida a missa, ficaram a fazer as suas rezas -e palrando - esperando pela missa seguinte da manhã ,que «duas sempre reconfortavam mais do que uma só » .Como eram conversadeiras, daquelas que todas as tardinhas vinham ao« rebate» contar as «últimas» , aproveitavam aqueles momentos para pôr a conversa em dia ,pois a festa afastara-as daquele convívio diário da má língua, onde falavam «disto e daquilo… desta ou daquela –de toda a gente! do sitio, pois que o tempo dava para isso, era tanto que ainda crescia para rezar um pai nosso e três avé marias ».

-Oi.. chopa!- olha para quem entrou… –disse às tantas a Maria Calatró da Malhada, interrompendo a conversa, virando-se para a Josefa do Arnal, ao tempo em que indicava dois indivíduos que ,de escada na mão ,com umas cordas aos ombros, tinham entrado na Igreja, onde só havia a luz das velas e as das lamparinas da majestosa Lâmpada . Tinham parado debaixo da mesma , fazendo um ar de espanto, dizendo um para o outro em voz alta, para que as «beatas» ouvissem :

- Ora vai-te …que raio de negócio fizemos… .Quem é que a há-de limpar por semelhante preço?! …dizia …o mais baixote, parecendo arrependido com o negócio

Responde o outro :

-Bem… já que justamos o preço , agora não há nada a fazer …Toca a baixá-la que se faz tarde

E se melhor o disse, mais rápido o fez : pondo mãos á obra subiu a escada e arriou a Lâmpada perante o olhar «especado » da Josefa e amigas , logo a metendo num saco saindo tranquilamente da igreja, de escada às costas …incluindo o saco .

-Estais a ver …«chopas», como o Senhor prior manda tratar das coisas da Igreja para esta luzir ?!…diz a Josefa Carqueja para a Calatró …e agora « inda hás-de dizer que o «home» nem prás novenas serve . És uma mal «dizente» …raios !-que ainda hás-de ir« assar» ao fundão do inferno …«Morrendas se não falendas» –mulherio de Satanás

Tocadas as sete badaladas da manhã , o Prior lá veio com o sacristão para rezar a segunda missa do dia . É então que a Calatró , que era esperta e já estava desconfiada de tanto cuidado do prior, pois no seu entender ”não era «arrais» p’ra tão grande barca”, lhe salta ao caminho e diz :
-oh!... senhor Prior .. tanta pressa para quê( ?!) santo Deus …,a limpeza podia esperar mais um« poiquinho» e acabar-se a festa com a nossa lâmpada, cá ?

-Que limpeza estás tu a dizer ?.. ,oh mulher!…e de que Lâmpada…está para aí a falar?! responde-lhe o padre João dos Mártires.

-A que o senhor Prior mandou «alimpar» - «hom’ essa» !- que estes olhos que o chão hão-de comer viu, ali … e « q’uinda» agora a levaram ,a mando de V. Reverência » …responde a Calatró apontando para o tecto vazio da igreja .

Foi então que o Prior olhou para o sitio onde era suposto estar a Lâmpada e, vendo-o vazio, de olhos esbugalhados, gritou :

-Ah ladrões que me roubaram… …e, vermelho como um «pilado da praia » logo se «arreia» das pernas ,caindo para o lado…

-Ide depressa buscar« auga» da benta …que o pobre homem vai-se … grita a Luísa dos Sete Carris para as restantes ,amparando o pobre o Prior nos seus braços de «moçoila pescadeira» .
-Que vá… «olhendas»… é como a Lâmpada ,«assome-se» que é um ar que lhe deu …logo diz a Calatró que não perdoava ao Prior ,tê-la um dia mandado para casa onde disse, tinha mais que fazer que estar ali sentada no rebate da Igreja á espera da missa da madrugada .
E logo a Calatró , acrescenta :
-q’uinté» tenho mais pena da Lâmpada que do «corvo » que não faz falta aos filhos, que não tem ,referindo-se ao pobre abade que , pouco a pouco , depois de «rebaptizado »pela Josefa, começava a dar acordo de si.


-Ai! … filhas …diz a Luísa …desta vez nem o Raposo nos vale !!!

Em Ílhavo ,durante três dias ,os sinos dobraram a finados, por ordem do Prior João .

;tantos… quantos os da festa.


A Lâmpada – essa - levada pelos larápios levou um sumiço …Até hoje …


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Já sabes : quando quiseres fazer corar de vergonha um «ílhavo», basta dizeres –lhe :-

«T’imbora» homem …que és da Terra da Lâmpada » …

Mas olha !...segue um conselho :- foge da terra ,não te vá acontecer ficares pendurado na borda ….que a um «ílhavo» desembolado, nem o campino de «Garret» consegue «fazer peito» ….



ALADINO