domingo, maio 07, 2006


«ALEVANTA-TE» ...OH! HOMEM DE POUCA FÉ...

Afinal nem tudo está perdido.....



Várias vezes tenho, aqui, confessado – com humildade - ser “homem de pouca fé”.Nanja porque o quisesse ser , ou até, porque se onão fosse ,tal me ajudasse a suportar com mais proselitismo as imbecilidades com que vou enriquecendo o «cardápio» da pulhice humana . Mas não há nada a fazer .Empedernido incréu...me confesso ...


Não acredito, por isso , em bruxas ...mas lá que as HAY...HAY..

Senão, vejamos...

Estes últimos tempos fizeram-me recordar -naturalmente com saudade - as vezes em que ia com meu Pai, à caça ,pois ele entendia que eu –como ele !-deveria ser um emérito apontador ás avezinhas .Confesso que a ideia de dar um tiro nas pobres e indefesas avezitas não me motivava, e se ia ,era para lhe satisfazer a vontade de uma companhia que privilegiava acima de todas .Logo que desapareceu guardei as espingardas e nunca mais dei um tiro ,nem por pura diversão. Nem nas barraquinhas da Feira

Claro que o longo caminhar tinha outras e notáveis virtudes . Físicas, mas não só aí esgotadas . O meu Pai aproveitava para me despertar, a atenção e os sentidos ,levando-me a descobrir todos os cantos e recantos dos «nossos reguengos»,visitando nos arredores imensos amigos que parecia ter em todo o lado , enquanto me ia contando «estórias» da «nossa história» .Foi assim que me levou à placa que, na Pedricosa , se refere ali ter pelejado o valoroso e leal Cavaleiro da FONSECA. Claro que ainda rapazito imaginei o dito émulo de Lançerote ,e recriei ,ali, lutas sangrentas , espadas a tenir , cavalos a arfar ....
Mas certo é que recentemente me debrucei sobre esse pedaço, e fui aí « encontrar» algo de notável . A seu tempo veremos as surpresas..
Voltando...
à questão da caça ,era então ( já) raro sair uma peça que se visse .De modo que eu ,descrente , abria a espingarda ,tirava-lhe os cartuchos e colocava-a ao ombro –como os cowboys dos filmes - e lá seguia em jeito de passeata .O meu Pai , ao contrário ,homem de sólida e impregnada fé, continuava a calcorrear os restolhos na esperança de que algo surgisse .E dizia-me :
Olha que ás vezes ,até debaixo do carro sai um bom coelho .Deves ter fé ...Pá!.”.


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Ora..
vem isto a propósito da minha descrença pela Cultura ilhavense .Antevejo-a morta, servida por imensos «casarões» –lá isso são! - , erguidos enquanto «levamos» o esforço cultural à estaca zero.
Mais vale cultura sem casas que casas sem a cultura.
Andamos a transformá-la num extenso e tediante areal de tristeza . Nada fizemos para recriar o interesse pela mesma ; antes amarfanhámos o passado , parecendo dele ter vergonha , reduzindo-o a um mero acontecimento que, por muito importante que fosse -e é- , não esgota de modo algum a nossa história de valores. A nossa imensa , valiosa -e multidisciplinar -cultura . E até –um dia havemos de falar disso !- demos desse acontecimento , uma leitura em certos pontos desvirtuada , esgrimindo duma maneira «à vol d’oiseaux “, muito leve, o nosso protagonismo em algumas responsabilidades ... que não só, nos feitos .A memória é curta .
Aqui nesta terra vamos sendo todos “parolos de primeira ou civilizados de terceira “
Andaram-se anos a discutir ,a projectar e a executar a Biblioteca .Com esta feita ,acabada e inaugurada com pompa e circunstância ,falta tudo.... menos edifício .Andamos há anos a discutir o Centro Cultural : Vão ver :- quando pronto, não temos o que lhe« meter» lá dentro .E para encher os 500 lugares?! –Haja Deus ! em tanta «fésada» - só se for com o QUIM BARREIROS ....p'ra cheirar o bacalhau ...
Todos parecemos padecer de uma maleita crónica : inocência a fingir …Das patifarias , tudo aceitamos em perfeita resignação , e santa paz de espírito : «isso não é comigo» ... .Degradação colectiva de afirmação .Não se medita sobre a maleita ;somos um rebanho em perfeita levitação colectiva .
Mas ...
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O facto é que fui agradavelmente surpreendido, nestes últimos dias , com dois acontecimentos de relevo .O da apresentação dos livros « Os Espelhos de Água » de Augusto Nunes e o « Vocabulário Marítimo do Litoral Português e os Problemas do Mediterraneismo » da Drª Ana Maria Lopes .
HAJA DEUS !...é de empaturrar ...
E se da última havia a certeza da «re-descoberta» de um trabalho do mais alto valor pedagógico –sim porque é aí , a meu ver, inquestionavelmente se deve fixar a «leitura» do mesmo! - o trabalho de A. Nunes surpreendeu-me pelo todo da expressão poética conseguida , distanciando –se a milhas do pouco –nada !- que se vem fazendo ,desde há quase um século, nesta área .


Vamos ao Primeiro :

«Espelhos de Àgua» é uma espécie de crónica detendo-se sobre “vários leitos ,vales e margens” de uma vida corrente , alimentada no sonho de ousar dizer tudo de uma só vez, em cada poema , para,afinal, amanhã, se sentir que de novo que «há ainda tudo» para dizer. E o acto de criação renova-se O poeta –e A. Nunes é-o! – sabe dizer tudo de cada vez ,..«de novo» …e oxalá, sempre
Agrdável ,surpresa e muita qualidade na apresentação .Até R.E se mostrou comedido nas palavras ,com o que naturalmente só ganha com isso …

Quanto ao «Vocabulário Marítimo do Litoral E os Problemas do Mediterraneismo »,de Ana Maria Lopes ,só uma palavra se lhe ajusta. Notável!...
Mas se quisermos ir mais além ,diremos que, tratando-se de uma obra clássica , obrigatória de consulta quando mexemos no mundo piscatório português ,e por isso citada com regularidade por académicos em trabalhos de grande notoriedade – só ultimamente se lhe referem Inês Amorim em «Aveiro e a sua Provedoria» e Sandra Araújo Amorim em «Vencer o Mar Ganhar a Terra »,em dois notáveis trabalhos que tive a oportunidade de ler - poderemos dizer com propriedade ( pois consultamo-lo com desusada frequência) ser um manancial de séria e extenuante informação , com lugar certo e obrigatório em todas as Bibliotecas Nacionais , e não só –mas claro! - nos escaparates dos que se interessam por estas coisas .

Ana Maria Lopes, é um «case study » -como agora é moda, dizer-se ; fixando-se apaixonadamente no meio marítimo que «emborcou» desde o berço , teve até agora –e há-de continuar a ter , certamente – abordagens muito seguras na matéria que lhe serve de observação .E curiosamente – a meu ver - fazendo-o de forma límpida ,transparente e adequada , servindo a «intenção » e não só o « meio para...» .Explico-me . Nas suas abordagens , A. Maria Lopes usa uma forma da linguagem adequada ao trabalho em «mãos» – veja-se o caso «Vocabulário…» versus «Faina Maior» versus «Moliceiros» - com técnicas descritivas diferentes , seja na «expressão» da escrita ou nos meios utilizados –, recorrendo frequentemente à imagem em que cada uma é um pontilhado impressionista com que vai preenchendo «a tela» que, dum modo estruturado , acabará por surgir -esplêndida !- no seu todo .

A apresentação do livro foi –a meu ver – muito conseguida .Porque quem o apresentou, conhecia- O ; sabia do que falava ,fazendo-o com naturalidade de conhecedor da matéria, não «colada para o momento», mas interiorizada .
E foi inteligente Ana M Lopes ao preferir que as imagens falassem por Ela .

Apenas um reparo :a sugestão do Director dos Amigos do Museu-que se louvam - não me parece pertinente . Isto é: - aquele livro - em nossa opinião - não poderá ser actualizado .Porque o glossário marítimo não se enriqueceu. Perdeu-se . E remendar o livro era desfigurá-lo .Pode a autora ,aqui e ali –em trabalhos de pequena ou maior dimensão - recuperar algumas das questões – e eu em particular gostaria de que o problema dos Mediterraneismos ,fosse ,de facto, focado com rigor ,pois isso parece-me não ter sido conseguido ,talvez porque a matéria é esfalfante ,eu sei ...-mas ,dizia: não me parece possível de os «embuchar» no texto ,que sendo dum livro de referência, deve morrer tal qual nasceu.
Às vezes isso é que é o mais difícil de conseguir : resistir a modas...ou tentações ...A Ana Maria , inteligente ,deve –o saber ...Pelo seu sorriso ao convite feito pelo D.A.M., ou muito me engano ,ou foi isso mesmo no que estava a pensar...

E hoje por aqui me fico . Gozando as delícias do enfartamento ,
pois, como diz Augusto Nunes

“quando a sorte surge…assim de rompão”
Nanja eu …negar tal monta “

ALADINO