quarta-feira, julho 27, 2005

PÚRPURA, GALERA E OUTRAS COISAS….MAIS



O BRASÃO



Em 1922 a Câmara Municipal de Ílhavo desejou legar para a posteridade um brasão de armas para o Concelho ,para o que convidou Rocha Madail, a quem «encomendou» o estudo do mesmo.Sugeria a Câmara, uma hipótese de trabalho que consistiria em adoptar as armas do donatários, as dos Condes de Carvalhais.


Rocha Madail discorda de imediato , até porque ,elucida, o 13º donatário foi-o ,não por descender dos Conde de Carvalhais , mas de ANTONIO BORGES ,a quem fora doado Ílhavo entre outras, pelo rei D. Manuel I. Este António Borges ,tio do poeta Sá de Miranda, despertaria a «gula» especulativa de Camilo , quando este se entreteve a mexer no lixo das falsas linhagens genealógicas ,dos descendentes das “prenhudas” dos senhores do tempo.

Ílhavo quer ter um Brasão d’armas?.. interroga R Madail…muito bem,responde ; mas o dos donatários é que nada tem para o caso; e muito menos o do Conde de Carvalhais ,que nem sequer usou armas …(…) e porventura nunca aqui passou”…
Dito isto , Madail, vai pois estudar o problema, de outro ângulo .
Não tendo Ílhavo qualquer SELO REAL conhecido , pensando-se que a haver ,e deveria ter havido – isso quereria dizer do merecimento da urbe perante a Corte, varrendo um escuro e desmerecido esquecimento - aquele teria desaparecido com as andanças das alterações das instalações do edifício dos Paços do Concelho e/ou, porventura, aquando da nossa integração no Concelho de Aveiro, em 1895.
Rocha Madail , na proposta que lhe irá servir de justificação para a fixação do futuro brasão –que não pretende discutir ,mas tão só orientar -, procura (antes) ir ao encontro das tradições das gentes locais ,quando refere:

“…..observando-se a história local deve criar-se um emblema que a não contrarie e de alguma maneira traduza a vida deste povo”.


E pergunta :

"Que têm as armas (daqueles…) donatários de comum com esta Terra?
Em que falam elas ás suas gentes?"


"Nada!!" .. remata categoricamente ….

Justificado assim as razões porque repudia a ideia , Rocha Madail começa a idealizar um brasão que evoque a antiquíssima vida marítima de Ílhavo, porque diz ,“é no Mar que está a sua tradição maior”.

Vai pois, Rocha Madail, em busca de documentação coeva na procura das referências mais antiga a ILHAVO, que encontra como ILAUUM, ILIAUO,ILLIABUM , para designarem aquilo que seria (pensa) uma UILLA de relativa importância , referenciando-a como centro de terrenos e ou marinhas, nos seus limites , relativo a doações de que se conhecem documentação feitas em 1095,1037,-1065,1088,1149,1163-1167,onde ,indubitavelmente se refere ,embora com diferentes, designações e modos ,a mesma UILLA de Iliaauo

Fugindo ao significado coevo sobre o termo UILLA ,que na maior parte das vezes significava então , pequenas propriedades com os seus anexos ,não correspondendo a um aglomerado de forte dimensão urbana ,Madail tenta justificar a excepção à tradição ,pois sugere, o mesmo poderia ser usado para classificar um(ainda que ) pequeno -é certo - aglomerado rural mas já de dimensão apreciável naqueles tempos…admitindo pois ,que, nem sempre ,esse critério tenha sido rigidamente aplicado .Ílhavo seria uma das excepções…

Resolvido isto, Rocha Madail , assume a convicção que naqueles tempos coevos da fundação da nacionalidade ,Ílhavo seria já uma povoação com alguma vida urbana, e não uma simples propriedade perdida nos baldios entre charcos alagadiços e ribeiras corentes. Para tal afirmação ,Madail socorre-se da doação que ROCEMUNDO fez ao Mosteiro da VACARIÇA onde se afima ” in uilla iliauo quantum in meas cartas resonat”, que ao “ não querer dizer in (minha )uilla” ,tal ,parecer significar , tratar-se não de uma simples propriedade, mas de algo integrado numa urbe, situada nos seus limites.

E tal povoação teria a designação de ILIAUO e ou ILLIABUM (latinizando a primeira),de onde proviria o termo ÍLHAVO ( com acento na primeira sílaba)

Mais tarde João Coelho dará uma outra explicação filológica para explicar o étimo ILHAVO. Veremos adiante…
Voltando a Madail ,e à justificação do “seu” Brasão, este «pretende» que a povoação, seria já naqueles tempos , o resultado da agregação da Malhada , zona terminal da vila onde se encontrava instalada a população piscatória , no Barreiro, ligada pela rua Nova à Matriz e pela rua Directa (Direita) a Cimo de Vila, zona dos Lavradores ,que seria, o agregado de onde teria nascido a urbe . De Cimo de Vila , pelo passadouro ,atingia-se o Casal que ligava a Alqueidão ,depois de atravessar a zona da Fonte, ali no carrefour actual da Rua José Estevão com a Rua de Camões. Verdemilho era um outro agregado urbano ,povoação que como as anteriores se teria juntado à UILLA ILIAUO ( em )

Muito significativo é que Madail afirma de seguida : “A outra povoação ,a da beira mar ,que se integrou na vila e lhe forneceu a sua característica mais fundamental….ignoro que nome tivesse .. “.
Parece pois levantada uma questão : teria havido uma povoação á beira mar, antes da Malhada?

Deixemos isso por agora….Veremos que não existiu…

Mais ou menos por esta altura ,na sua proposta , Madail divaga e força ( a nosso ver) a existência de uma «descendência» (que hipoteticamente apenas enuncia), Fenícia ,de que ele próprio, afinal, contudo (logo informa ) duvidava .
Se foram Fenícios, Cartagineses ,Gregos, Tartessos (estes com todas as probabilidades históricas ),poderia também ser, nórdica ,a nossa ascendência.. De facto, enquanto que da passagem daqueles Povos acima referidos pela bacia do Vouga, não existe qualquer suporte documental ,ou achado Arqueológico que o prove,dos Nórdicos há ,pelo menos por via documental, conhecimento de um combate travado por uma « armada» destes povos, em Vila da Feira (Longobriga) , para resgate de uma filha de um seu REI .Naturalmente, isso, prova o que já se conhecia : - que a Ria era nesses tempos navegável em grande extensão.

Madail sente que é preciso sair da desagradável posição de « filho de pai incógnito» , e vai daí «agarra-se» para TAL ,aos fenícios, sem contudo fazer« prova de paternidade»
Que aqueles foram grandes comerciantes, muito mais que grandes navegadores, sabemo-lo hoje ; sabe-se por exemplo que para subir a Costa Atlântica da Península, se fizeram acompanhara dos Tartessos nos barcos que estes, já então possuíam ,capazes de enfrentar o Atlântico e navegar para Norte ( Quirino da Fonseca ).


Madail não hesita ,e resolve o problema apondo no brasão uma” Galera antiga vogando sobre mar azul encimado por três vieiras de púrpura, debruadas a ouro”!!!
A Côr da bandeira deveria ser de Púrpura …Não o faz por menos!....
Era esta cor reservada “às vestes do Rei e dos grandes senhores ,e ainda hoje restrita aos grandes dignatários e príncipes da Igreja”, apesar de já há muitos séculos, tal tinta, não ser já extraída dos moluscos (que os fenícios procuravam) mas sim da COCHONILHA. Mas que tal cor na Bandeira nos daria um certo traço de realeza , isso era indubitável :- as conchas representariam então, no brasão, mesmo que em abstrato , “os referidos moluscos” tão procurados pelos ditos Fenícios naqueles remotos tempos ,para a feitura da cor IMPERIAL , tão ligada ao cerimonial e fausto dos grandes momentos.

Dito isto, espanta-nos que de seguida, na proposta , Madail “nos desengane” ,quando afirma :” De forma alguma -note-se - pretendo afirmar que Ílhavo tem origem Fenícia” pois, concorda ,e essa é também a nossa opinião hoje – que “o estabelecimento das Colónias pelágicas ,fenícias ,ítalo –gregas –e nórdicas acrescentamos nós - é coisa muito para se discutir….
Só que , para cúmulo, incompreensível mesmo é que a Galera usada por Madail seja de origem(tipologia) GREGA – o Prof José Maria Lopes denuncia-o – mas, descartada esta incongruência em usar anel nobiliárquico comprado à pressa , certo é que, no conjunto ,o brasão e a bandeira são, de facto, muito bonitos , diferentes de todos os outros, que normalmente são mais plebeus e se «regem» por extrema simplicidade . Não, Ílhavo tem um brasão que se é de duvidosa evocação histórica é, de facto, excepcionalmente bonito ,elegante ,destacado. Neste caso diferente!...claramente ambicioso!...
Mas no que estamos frontalmente em desacordo ,é que, elaborado –ou proposto -, em 1922, o Brasão só se revia em apenas uma -e só uma! - parte do Concelho e das suas gentes .De facto, Rocha Madail, cometeu a nosso ver , o imperdoável esquecimento de olvidar que nessa data , o Concelho, continha então, decorridos duzentos e tal anos da historia recente da anexação das Gafanhas , duas realidades Sociais completamente distintas na sua história, origens , tradições e costumes ,pois já em 1922 ,os GAFANHÕES, davam um claro sinal da mais valia económica ,humana ,e social , que representavam–e que iria crescer exponencialmente mais tarde - demonstrando (já) à data da escolha das armas para o CONCELHO, terem um peso não negligenciável no desenvolvimento do Concelho. Justificando por isso, adequada representação no Brasão. Esquecer tal foi uma afronta!.


Ora os Gafanhões , de certeza ,não vieram dos Fenícios “ou outros que tais”, mas tão sómente e mais prosaicamente ,das Gândaras ,trazendo o seu enxadão ,a sua perseverança ,e o seu inquebrantável querer e sofrer , para revolver os terrenos gafos que a Ria tinha então abandonado ,rasgando o rego que logo teimava em fechar-se , tantas vezes quantas foram preciso para QUE DO NADA ,uma nova realidade de terra prometedora, surgisse.

Assim, resumimos

1- Rocha Madail socorreu-se de tradição duvidosa para apresentar carta de paternidade (mais) que duvidosa

2- Ao fazê-lo ,sobrepôs uma tradição, a uma realidade histórica, que pecou por discriminatória .

3- Sem que esteja em causa a lindeza do Brasão ,que como tantas coisa nos tempos recentes se” vendeu muito bem “ - O BRASÃO É BONITO E SINGULAR…

Nos próximos capítulos é nossa intenção :

1- Comentar algumas pertinentes questões levantadas por Rocha Madail, face ao que é sabido hoje (quase um Século depois).

2- Deduzir opinião sobre algumas dúvidas levantadas à época

3- E ,mais importante que tudo, trazer á memória o «ílhavo» de antigamente

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Assim o vamos tentar fazer neste Blog da Terra da Lâmpada - ainda que isso não seja fácil - provando que aqui também se fala de coisas sérias. Ou melhor - porque todos os assuntos são sérios! – falamos neste ,sem sorrir.

ALADINO