terça-feira, dezembro 14, 2004

UTOPIA...TALVEZ NÂO...

VOLTAR AO MAR… É IMPERATIVO NACIONAL



Volto hoje a um assunto que me motiva uma reflexão enquanto deixo correr o tempo que se esvai nestes dias aborrecidos que na Terra da Lâmpada se seguem uns aos outros, jornas iguais, sem sentido nem norte, pastosas, desinteressantes, entediantes.


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1 - Penso que num país onde a alternância é um facto real ,constatado, com uma rapidez dos ciclos de vida do poder mais breve que o desejável o que acaba por gerar instabilidade e comprometer medidas de maior fôlego, não são de desprezar acordos de regime em determinadas áreas. Há questões que transcendem uma legislatura, que não se compadecem com o fazer e desfazer, e /ou com a compaginação das mesmas com o calendário politico eleitoral.

Como no País, entendo por maioria de razão da pequenez do espaço geográfico e da identidade próxima de uns e de outros , que haveria grandes opções estratégicas -não confundir com os chamados planos estratégicos partidários, com fins e objectivos encomendados - que discutidas em profundidade por toda a sociedade civil , depois de encontrado o necessário consenso em volta das mesmas, deveriam transformar-se em questões de identidade de uma comunidade e passarem assim ,obrigatoriamente, a fazer parte do portefólio de todas as forças politicas, quando instaladas no poder.

Há questões de vulto que comprometem gerações -ou até as ultrapassam - que por isso não podem estar consignadas aos arremedos politiqueiros e seus demagógicos programas, cuja preocupação se resume ao anúncio de obras de fachada tidas por conveniente para ganhar votos em determinado ciclo.
Deveremos ter vontade de “querer”, mesmo aquilo que sabemos, já não vermos

Este seria o modo de ultrapassar a “indigência” partidária local (não desta ou daquela comunidade ,mas universal) e trazer assim um “apport” de competências à discussão de problemas de interesse comum, deixando para os políticos a discussão primária dos assuntos imediatos do calendário politico. A "competência" pode não estar interessada, OU MOTIVADA em ocupar cargos políticos ,mas é patente que está DISPONIVEL para a DISCUSSÃO DO ESSENCIAL

Uma Câmara alta no Poder Local .
Que o não o subvertesse mas o ajudasse a traçar um rumo claro , em questões estratégicas de longo prazo.


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Por exemplo :


2 - Algo que resultou numa forte perda para o País, foi sem dúvida o aniquilamento da relação privilegiada deste canto à beira mar plantado, com o Mar. O Mar foi desde sempre, o desígnio - o maior -, desta velha pátria ; foi a nossa maneira de deitar um olhar profundo sobre outras civilizações, um meio de ultrapassar a nossa pequenez geográfica ; nele embarcar e partir para a descoberta de novos mundos foi uma clara opção de grande relevo estratégico, que ocupou muitas gerações .
Fomos percursores em desvendar os seus segredos – colhendo para isso , inteligentemente, ensinamentos dos mais dotados -, carreámos por seu intermédio novidades de tudo quanto é canto, contribuindo assim para a inveja dos poderosos de então ; alimentámos vícios e permitimos com grande ingenuidade que outros se locupletassem com o nosso esforço, transformando-o na árvore das patacas dos “abutres” do centro e norte europeu.
È certo que ostentámos riqueza e não soubemos fixar-nos como nação rica .Esbanjámos, julgando que a canela e o cravinho durariam para sempre ; repetimos a ostentação e os mesmos erros quando, descoberto o pau Brasil, nos embrenhámos em ocupar um mundo quantas vezes superior à nossa capacidade de povoamento e, onde só alguns colheram os frutos enquanto outros desbaratavam esforços e vidas, permitindo a diáspora..

Já então os ricos eram poucos, e os pobres mais que muitos.

Certo é que o Mar tudo nos deu ; certo também , é que das asneiras e vícios lusos , culpas ,o mar não as teve...





3 - No mar estivemos na primeira linha, quando os recursos da pesca do arenque rarearam no norte europeu , não só porque era necessário encontrar novas fontes de alimentação mas, tão ou mais importante, impunha-se suprir a quebra sentida na exportação do salgado , então fonte de riqueza principal do País, carreado dos portos portugueses para a toda a Europa para conservação do peixe capturado.

Era preciso mudar o rumo; de um sopro chegámos à Terra dos Bacalhaus contribuindo decisivamente para a epopeia do fiel amigo.

Não teremos sido os primeiros, mas, certo é, que no segundo ciclo da exploração dos bancos da Terra Nova, aí sim, fomos dos primeiros.

4- Em tempos sucessivos desenvolvemos importantes frotas de pesca e mercante que em nada nos envergonhavam de outras pertencentes a Países com bem maiores recursos.

Desbaratámos com clara e ligeira insensatez - outra vez mais –, essa dádiva , em nome de vanguardismos então em moda que acarretam quase sempre, graves e irreversíveis consequências, porque, mal absorvidos e mal digeridos por falsas elites (vanguardistas) , originam na prática , graves erros ,por vezes irreversíveis.
Soubemos destruir ,quando o que importava era tão só reformar. Como hoje ainda, é atributo (que parece inerente a cada português que se preze) destruir o que está bem, antes de pensarmos como edificar o novo, para melhor.

Sem me alongar mais, pois não é momento para tal nem esse o objectivo, queria tão só com isto dizer ,que nesta época de globalização me parece ainda, não de todo perdida ,a esperança de um regresso ao mar.

Recentemente vêem-se cada vez mais espíritos preocupados enunciando a necessidade(e urgência) deste regresso, indicando-o como um dos factores (estratègicos) fundamentais da recuperação e consolidação dum novo modelo de desenvolvimento económico para o País.

Voltar ao mar com novas tecnologias, com o respeito pelas reservas naturais e com a preocupação da preservação do ambiente, é uma tarefa de monta que urge fazer. O Mar abre-nos imensas perspectivas exigindo novos e infindáveis campos de saber, onde certamente bem preparados, PODERÍAMOS TER UM RUMO AINDA MARCANTE. Aprendendo a não repetir os erros do passado

Sabemos tanto sobre o mar, (amamo-lo como ninguém); o Know-How detido será bem importante na nova relação que se anuncia com ele, e para a qual, devemos desde já marcar presença



5- E se não me engano nesta reflexão, gostaria que esta pretensão servisse de incitamento para os nossos responsáveis Autárquicos.

Ílhavo TAMBÉM tem de procurar novos caminhos.

Ìlhavo tem mesmo de reiniciar a sua relação interrompida com o mar, para de novo nos posicionarmos de bem connosco próprios, cansados que estamos deste divórcio.

Perdemos a nossa Marinha Mercante, exaurimos e ou subvertemos a nossa frota de pesca; deixámos de formar oficiais (a Escola Náutica, julgo, está desactivada), despreocupámo-nos com a formação de quadros intermédios; não acompanhámos o desenvolvimento tecnológico nesta área; os nossos estaleiros só raramente acolhem obras valorativas; enfim, perdemos um importante e transcendente sector de real valia para a economia deste País.

O desafio que coloco ao nosso poder local é que de imediato se lance numa luta que tenha como objectivo bem definido, o de trazer para esta Terra (para esta região) centros de saber ligados ao novo caminho de um regresso em força, ao mar.

Deste modo os ílhavos estariam de novo no caminho certo para recuperar grande parte do amor próprio perdido, que parecemos mendigar em cada acontecimento que nos recorda o que fomos, mas que não nos pergunta o que queremos voltar a ser.

Os centros de saber são verdadeiros motores do desenvolvimento de toda uma região. São pólos emergentes de grande e imparável impacto (directos e indirectos), com reflexos extraordinariamente sentidos em muitas e diversificadas áreas e sectores colaterais.

Já em tempos houve uma ideia que não vingou: a de trazer a Escola Náutica para Ílhavo. Interesses de Classe a isso se opuseram, resguardados no centralismo político de então (ainda infelizmente não desaparecido) e no corporativismo de algumas delas.

Hoje ,uma Escola das Tecnologias do Mar, criada com o apoio e o saber dos mais afamados centros europeus ligados à matéria , abrangendo as mais diversas áreas, desde centros de preparação nos diversos sectores de actividades de profissionais para o desempenho da suas tarefas, a centros de desenvolvimento de novas tecnologias de pesca, de transporte e movimentação de cargas, de gestão portuária, de projecção e construção naval, seria de um arrojo inaudito mas, certamente, de resultados e consequências inigualáveis para superar a incerteza do nosso devir comunitário.

Dir-me-ão que a tarefa é gigantesca ? que há muitos Adamastores ? que é uma UTOPIA? Talvez…
Mas os muitos Adamastores sempre foram desfeitos pela audácia, pela pertinácia, pela vontade dos que se votaram à tarefa de provar que eles só existiam no ideário do medo dos que não ousavam, ousar…

No passado não estivemos sós nessa gesta dos novos mundos; até nós vieram então, sábios, trazer-nos os seus conhecimentos; aqueles que na Europa mais sabiam sobre ousadas técnicas da cosmografia ,foram trazidos para Portugal num gesto arrojado, ousado ,de soberba ousadia ,o qual permitiu obter certezas na demanda incerta a que nos propúnhamos
Agora, encastrados na nova Europa Nação, será indubitavelmente mais fácil obter os apoios para nova ousadia.

Há muitos para quem o acordar deve ser já tarefa demasiadamente cansativa. Desses não precisamos.

O que precisamos de motivar é uma discussão profunda alargada, intersectorial, sobre se o País quer ou não regressar ao Mar.

E se o resultado for positivo - como antevejo - deve o poder politico local marcar um lugar de destaque na linha da frente desse novo desígnio, puxando para tal dos galões conquistados ao longo de cinco séculos de viver o ( no) Mar.

Galões ganhos por muitos e transcendentes feitos de que não se teme qualquer tipo de comparação.

Precisamos de olhar o horizonte sem fim para voltarmos a ser, nós próprios… ser de novo ...ílhavos…
ALADINO