sábado, dezembro 11, 2004

PAIS HÁ MUITOS....



PAI DA PATRIA...PAI DA GAMA (ancho)


Pode parecer mentira, mas esta Terra da Lâmpada sem horizontes nem ambições, frouxa, amorfa, desiludida com o seu destino, nem sempre foi assim. Facto verdadeiro, incontornável, é ter Ílhavo sido, já em outros tempos, uma Terra interessante “de muy largas atitudes e preceitos “, senhora de uma história rica e de uma rica história.
Ambas verdadeiras.


Hoje vamos falar um pouco desse passado, da importância tida por um dos ilhavos na resolução de grandes e graves problemas da região, provavelmente por muitos desconhecido, o qual por mor disso foi aclamado como o PAI DA PÁTRIA (sem tirar nem por).

Exacto. Assim mesmo.

Vamos pois à história…

O progresso e/ou a decadência de toda a região que se espraia pela bordadura da ria, dependeu sempre e em todas as situações e circunstâncias do estado da “barra”, isto é da ligação da ria ao mar a qual permitia não só a renovação continuada das águas, e por consequência a manutenção da vida no haffe, mas e também, por ser por tal abertura que se tornava exequível a entrada dos produtos e bens que do exterior alimentavam as populações e, ao invés, possibilitava as exportações que já eram muitas, de uma grande parte dos bens produzidos por toda a região (sal, peixe, milho, cerâmica etc)

Não se renovando as águas, a insalubridade atingia tal ponto que originava surtos pestilentos que devastavam a região ribeirinha, as sua gentes e gados, mas e também, porque a subida das águas impedia a produção da maior fonte de riqueza de então, a produção Salina.

Tal “barra” inquieta e irrequieta, postando-se ora aqui ora acolá ao longo do cordão de areia que de Ovar monta a Mira, mantinha-se completamente assoreada, a tal ponto que, em 1756, dada forte invernia, sobreveio tão grande cheia que Aveiro e toda a região ficaram completamente inundadas, salinas cobertas, as ilhas da ria desaparecidas.

Clamava-se por todo o lado; providências contudo, nenhumas... A população sentia-se abandonada; a miséria grassava por todos os cantos. A região definhava; o pesadelo da fome e da peste abatia-se sobre as populações a quem, apenas, era consentido erguer os braços em prece desesperada.

É então que um grande Homem, um ílhavo, o seu Capitão Mor José de Sousa Ribeyro, Cavaleiro da Ordem de Cristo, Morgado da Nª Srª da Nazaré, em Alqueidão, solicita ao Rei D José I autorização para, a expensas suas, “fazer obras e abrir a Barra”. Obtida a mesma (1757) segue-se um trabalho ciclópico de remoção do areal ali nas alturas da Vagueira, em que foram empregues mais de duas centenas de homens pagos a «jorna bem superior à usual», sendo que, a 8 de Dezembro de 1757, seu filho - capitão dos Dragões em Aveiro - “picou” a vala, isto é, derrubou a paliçada que separava a ria do mar; num repente a vala transformou-se num canal ancho, dando lugar a uma barra que alcançou as 224 braças de largura. Em 48 horas as águas na laguna baixaram drasticamente de vários metros, iniciando-se assim, como consequência deste notável feito de um grande de ílhavo, um novo e próspero surto de desenvolvimento de toda a região.

Feito a tal ponto reconhecida a virtude da tarefa grandiosa, que o Senado de Aveiro querendo manifestar ao Capitão Mor João Sousa Ribeyro a sua muita gratidão pelo beneficio de tamanha obra, lhe atribuiu o titulo de PAI DA PÁTRIA.

Muitas e grandes celebrações glorificaram tal acontecimento, a elas acorrendo muito povo, fidalgos e clero, unidos em devoto e reconhecido preito.

Foi tão longe a exaltação de feito tal, que exacerbados sonetos glorificaram para a posteridade o autor de tão singular empreitada.

O autor do soneto sabia a dificuldade de tal “emposta”, e até avisou em jeito cautelar

UN SONNET SANS DEFAULT; VAUT SEUL UN POÈME…

(...) en vain mille auteurs y pensent arriver (…)


mas lá se atreveu :




SONETO*


Nesta acção, que não teve semelhante

Sousa invicto, em País tão indigente

O renome alcançais claro e excelente

De redentor da Pátria Naufragante


Ela estando já quase agonizante

Em poder do inimigo, o mais valente

Desalojando-o activo, em continente

Vitoriosa se viu, e vós triunfante.


Um glorioso padrão por tal vitória

Vos levante; onde escrito o nome vosso

Possa eterno ficar para memória



E eu (pois com a minha pena, a mais não posso

Estender pelo mundo a vossa glória)

Num Plus Ultra gravará em tal colosso


* (nota : ortografia actual, vertida por nós)




Como se vê Ílhavo teve filhos que da Lei da morte se foram libertando…
Outros, contudo, que pela lei de vida - et pour cause!- se mantêm aferrados ao Poder.

Tivemos um PAI da Pátria…distinguido pelo Senado de Aveiro

Hoje temos um PAI DA GAMA... eleito por um Senado “aparecido”
(co
mo por aqui se diz)

Que raio de nome… Gama! … derivativos,...afins...etc. Adiante

O Pai da Pátria desentupiu a Ria

O Pai da GAMA (ancho) …pretende entupi-la …com a Marina …
Mas Pai, seja

quais forem as circunstâncias, mesmo PAI TIRANO, merece um soneto

E assim

SONETO AO PAI DA GAMA


Ditoso Ílhavo meu; quão diferente

Te vês agora, do que já te viste

Ontem ufano, te viste desentupido

Hoje, aflito te vês de novo triste


Da cornígea Ria a vaga enchente

Te insultava, a que o braço resistiu

Do Capitão Maior, em que consistiu

O deixares de lutar hoje bravamente…?!



Um Ribeyro caudal dos mais possantes

Te conseguiu essa dita; oh ! quem dera

Muitos deste, RIBAUS semelhantes…



Alcançarás no Inverno a Primavera!

Tu Ílhavo serás como dantes

E o Ribau menor do que antes…era



Em 1927 pretendeu-se que o anterior soneto ficasse para sempre exibido no Espólio do que haveria de ser o Museu Regional de Ílhavo (o que, como se sabe, se deitou fora)

Proponho para empobrecimento do espólio se recolha agora, este …


Quando fizermos o saneamento da Terra da Lâmpada, e a desentupirmos …


ALADINO