sexta-feira, dezembro 24, 2004

FOI VOCÊ QUE PEDIU UM DÈFICE?

No SAPATINHO ....do Sr ESTEBES


Esta questão do DÉFICE das contas Publicas começa a dar-me voltas ao estômago, .... mete-me “nojo” ,..é o termo mais apropriado ...desculpem lá, mas não tenho outro á mão de semear .Em volta do mesmo giram as mais tolas – e por vezes ridículas – arengas, intelectualmente desonestas dos” opinionmakers” .Sempre vertidas por eruditos sábios que parecem propositadamente apostados em fazer circular informações díspares ., contraditórias ,por vezes irracionais dislates, alguns tão desavergonhados que fariam corar um crocodilo e equipá-lo em benfiquista dos quatro costados..


Muitas voltas e "tresvoltas" se tecem sobre este magno problema que : - Ora é.....Ou já não é , Foi,...talvez sim ,...talvez não ...; é o que se ouve todos os dias da boca de .Comentadores ,Políticos , (des)Governo ,Oposição e muitos outros , cada um acarretando a sua “verdade”.De comum o facto de todos tangerem falsas , distorcidas e propositadas explicações, atiradas para a praça pública com o fim único de esconder a verdadeira realidade e e ou a dimensão exacta do problema.
Curioso é o facto–ou talvez nem tanto - ,porque nos dá a ideia da insensibilidade reinante perante um problema que pode empenhar o futuro das novas gerações , que as posições distorcidas que vão sendo “papagueadas”, atravessem horizontalmente todo o espectro politico partidário nacional.
O que, se parece mostrar a unanimidade no sentimento de estarmos perante um facto grave , mais grave é que cada um o analise e para ele receite mesinhas, não para cura da maleita mas apenas e só para paliativo. Assim, ano após ano ,volta a questão :- e tudo como dantes –quartel general de Abrantes
Todas as cores Partidárias dão do famigerado défice , ou erradas informações ou distorcidas verdades ,todas elas mais preocupadas com os efeitos das mesmas na próxima colheita do voto ,do que na procura de soluções que controle as causas do mesmo e do ajuste de receituário que o cure de vez.
Esconde-se , claramente, o que é politicamente inconveniente .Todos o escondem.; mas ..todos...

Assim, há os Partidos que criam a falsa ilusão de que o problema se resolve num passe da mágica porque, sabendo que nunca ( a curto prazo pelo menos ) serão eles a assumir soluções, fazem crer que o remédio milagroso estará no aumento de receitas (desde que os impostos não subam ), por uma caça fiscal aos “ricos” .Esquecem que isso não se consegue de um dia para outro Sobre diminuição das despesas são omissos... porque em parte,tal é politicamente inconveniente
Os OUTROS procuram ,tão sómente, baralhar e tornar a dar , afirmando que o cardápio do receituário deverá prever a diminuição da despesa por via, fundamentalmente ,do desemprego decretado na função pública. Sobre o peso dos Boys ,nada se alvitra .E quanto a fugas ao fisco vamos fazendo de conta....que havemos ,um dia ,de olhar para isso...mas agora ainda não há força para tal


Ora vamos lá a ver se com simplicidade nos conseguimos entender .

Vamos lá colocar como cobaia e centro de observação uma Família .
Poderia ser uma Família qualquer ,a Tua ,a minha ou Outra ,não vem ao caso.... Escolhemos a Família ESTEBES,. porque mais adequada ao exemplo que queremos dar

A Família E, é uma família de longas tradições, com um grande passado- diz-se remontar já ao tempo dos Afonsinos ,vejam lá !... ; muito antiga, nela reinam (ainda) princípios que de todo não foram esquecidos , o que não exclui que alguns (bons) hábitos do antigamente não tenham sido postergados pelas gerações mais novas. Acontece...

Vamos então fixar por mero exercício académico, que essa família tem um INGRESSO , isto é uma RECEITA ,( um rendimento ) de 1000 unidades Ano.

Receita que é a soma das rendas dos caseiros , da venda de bens produzidos na quinta , dos foros (taxas) que recebe dos ainda remanescentes “foreiros” existentes nas cercanias da quinta ,a que se junta uma quantia anual, variável, referente a taxas ( % ) sobre descasque de sobros feita por compradores do sector da cortiça.
Ora no ano de XXX3 todo este rendimento bruto foi, repetimos , de 1.000un /ano acima referidas.


Como DESPESA, no referido ano , a Família , teve

A referente aos salários dos ainda vinte trabalhadores que laboram directamente na quinta , que ascende na totalidade a 200un/ano ,

A referente aos gastos com a educação (nas Escolas que mantém ) dos filhos daqueles tabalhadores que atinge as 20 un/ano ;

A que assume (por tradição que vem do antigamente) , com os cuidados de saúde primários desses trabalhadores ,o que atinge o valor de 50un/ano

E ainda , a que assume com diversas melhorias patrimoniais , melhorias nos caminhos, vias de acessos ás leiras, reparos de telhados e outros , etc. que somam por ano 300un,


NO TOTAL a despesa (fixa) assim considerada foi , pois , de 570 un/ano


Mas....; mas...o pior é que

A família tinha adquirido e sustenta, alguns maus hábitos vindos com o novo- riquismo , recrutando criadas de quarto ,secretárias ,assessores técnicos da exploração ( estes com direito a bons carros ,cartão de crédito ,telemóveis enfim, satisfação das necessidades(?) básicas “ criadas” pela dita sociedade de consumo. No total com este Pessoal não produtivo a família gasta 800un/ano ( repare-se , muito mais que os salários directos dos produtivos que foram de 200 un/ano , lembramos ).

Mais ,ainda :


Tinha a família por hábito viajar , escolhendo para seu conforto os melhores Hotéis, os melhores resorts, os mais encantadores paraísos para quem ,nada fazendo ,precisa de nada fazer . Pior ainda, é que a família não sabe ter férias sem levar atrás de si alguns assessores , aias ,secretárias etc .O custo anual de tal hábito ascendia anualmente a 500un/ano.

E assim o total destas despesas (570+800+500) , ascendeu a 1870 un /ano
Em resumo

Para uma receita de 1000 un (produto bruto que entrava para a família) a família teve em XXX3 uma despesa de 1870 un. Logo um défice de 870un .

Algo de preocupante este défice de 870 un em XXX3

O que fez o chefe da família?! chamou toda a gente e disse –lhes :

- Bem ,por este ano vou ter de vender a quinta lá do Norte e o terreno da encosta, o que me vai render 500un , com que acudo ao descontrole e o défice fica em
70 un -inferior ao limite (10%) que os Bancos me impõem se quero continuar a obter crédito para a sementeira para o próximo ano.

.Só que para o ano, adverte, não posso repetir a situação ,Senão temos de vender os dedos. Vamos pois , obrigatoriamente , ter de reduzir as despesas.

Se bem o disse, pouco ou nada ligaram a tais sensatas palavras ,os restantes membros da dita família.

Cada um logo se apressou a perorar sobre a impossibilidade de tal exercício : a mulher porque já tinha as festas da Quinta marcadas ; os filhos, tinham já reservado as passagens e estadias papa as férias ; os assessores ,aias e criados , diziam ,eram insubstituíveis .E mais:- como estavam lá por cunhas do Sr Presidente e até do Revº Bispo ,se despedidos, daí poderiam vir retaliações bem graves ,disseram...

Ficou por isso isolado na ideia de cortar nas despesas ; percebeu que nesse ano tinha posto o tal défice (a divida do ano) abaixo do limite aconselhável (exigível) , só que entendia claramente que, com a venda d a quinta lá do norte e do terreno da encosta ,na realidade ,a família estava muito mais pobre.

Para XXX4 chamou então um expert (também dito economista ,pessoas que dizem sempre como fazer no papel, mas que nunca fazem fora dele , deixando essa tarefa aos outros ) para que este lhe explicasse como consolidar o défice ( isto é:- o que já queria, nem era diminui-lo mas, ao menos, não o aumentar ) .

O académico, sábio em contas de somar e subtrair -mas um nabo em contas de “multiplicar”- grande criador de cenários, fez que pensava, que matutava na difícil “emposta” – o que sempre convém em tais momentos – e só depois de muitos números gatafunhar ,números e mais números, como Salomão ,ditou : - HELLAS JÀ SEI...


Corta-se na despesa de saúde (o empregado que necessite será o utente pagador) ;
Corta-se a seguir na despesa de educação : a educação ,disse o expert, deve ser adequada e paga por cada um a que ela recorra .
Corta-se também nas melhorias- que o Povo não pode ser mal habituado -, pois o tempo é difícil para os ricos quanto mais para os pobres já habituados (já lhes sobra o reino de Deus –diz com a mão no peito e sorriso seráfico )
:
Ao todo, aqui , poupo-Lhe (?) logo 370 un/ano!!!


Quanto às taxas (impostos ) ,logo adiantou :
Nas receitas com os imposto (foros) ,aí não mexe .....(por acaso o expert era um dos que pagava o referido imposto ,que aliás, ano após ano, vinha decrescendo pela não declaração verdadeira dos alqueires retirados ou de sobro descascado), que esse dinheiro vai servir para manter o País a funcionar, acrescenta .

Mas então (? )–pergunta o chefe da família - o défice continua , só que passa de 1870 un para 1500 un ,pois só retirámos as 370 un .Então e o resto? ; -o que hei-de fazer... de novo...?! interroga ...

Nada demuito dificil ;para isso estamos cá nós –responde e explica- o expert .

Nos assessores ,nas secretárias, nos amigos dos amigos , não se pode mexer ,pois são eles os sustentáculo da sua qualidade de vida. Nas férias da família muito menos ,que não podemos deixar de usufruir as vantagens de ser ricos ;

Então o que se vai fazer. é despedir dois caseiros trabalhadores na quinta -pois a crise ,explicaremos, obriga-nos a estas atitudes ,para bem dos restantes,numa atitude patriótica –diz em ar compungido de falso cristão- e assim sempre poupamos 40un/ano..Já vamos em 1460 un

Se vendermos a vinha do montado que somada à venda da terreno da encosta renderão 1400 un - pronto, o défice já fica só em 60 un ,o que é menos que no ano passado .

O chefe de família pensou ...pensou e interrogou : mas então dispenso gente que produz , gente que me dá riqueza e fico com os que nada fazem ,nada produzem?...E vendo as ultimas propriedades ? E vou dizer que mantive (melhorei...) o défice familiar, que o tenho controlado? Para o ano estamos na mesma ,só que ainda mais pobres.

Foi para casa pensativo, curvado à fatalidade; subjugado ao inevitável .Nesse fim de ano as horas foram de profunda e isolada solidão .Os filhos e filhas exigiam mais criadagem, mais automóveis ,mais férias : a mulher mais viagens, mais festas ;os assessores e secretárias e presidentes da adega transformada agora em Instituto, exigiam mais ordenado ,mais cartões ,mais BMW’s...



Resolveu sair ;
sem dar por isso os passos encaminharam-no para a casa do "Jaquim da Cláudia",seu caseiro , que vivia com a família ali ao lado, nos anexos da quinta. O Jaquim tinha nascido ali , no mesmo ano que ele e, tinha sido até a Cláudia ,mãe do Jaquim que tinha amamentado os dois .No Jaquim via mais do que um trabalhador dependente ; via nele um amigo do peito a quem reconhecia - sempre o reconheceu desde que ocuparam o mesmo banco da escola - uma viva, uma portentosa inteligência, que só por falta de meios não pôde ir mais longe que a 4ª Classe. E bem o merecia, pois era de longe o melhor da escola, como muita vezes o reconheceu a professora, a D Vicência

Entrou e viu como o fogo na lareira crepitava com energia sobre a qual fumegava uma panela de onde se escapava a promessa de apetitoso manjar: a mesa estava posta com o necessário, e até não faltava um naco de presunto e um chouriço, para entreter o estômago ;foi de imediato e com franqueza , exortado a cortar um pouco e convidado a beber um copo da “ sua adega” ,o que raramente fazia, pois na casa da Família só se bebia BORDEUAX . Olhou em volta inquieto ; mas não , nada faltava àquela gente, que parecia até bem feliz. .Muito menos faltava a boa disposição, bem contrária ao estado de espirito em que mergulhava .

- Jaquim, desabafa enquanto se senta no canapé da lareira:- isto vai mau... foi-se a ultima propriedade .Para o ano já nada há para vender : agora, a ter de vender, lá se vai a quinta toda...

- Não ,não creio que tenha de fazer tal , Patrão .Olhe: eu cá por mim fazia diferente

- Como ...então Jaquim ?! não vez que até o senhor Doutor disse...que há que vender.. .

- Ele lá sabe o que diz , mas até Nosso Senhor foi enganado por tanto confiar .Olhe : - eu fazia doutra maneira :

- Aos que declaram 10 e ensacam 1.000 , não hesitava ; ou pagam ou
largam.
Aí vai logo buscar 500, concerteza : pois vão berrar, estrebuchar ..deixe-os berrar. Faz-lhes bem aos pulmões...que andam tísicos de tão pouco trabalhar...e têm o papo bem cheio.. Não morrem de fome mas da doença...


- Aos que vieram á procura de empregos –que não de trabalho- os seus amigos , e os amigos de seus filhos e dos filhos de amigos ,mandava-os cavar..; os que agarrarem enxada , deixe-os ficar e não se preocupe .Se cavarem 30 pague-lhes 20 ,e dos 10 que crescem ,tire 2 ; aos 8 restante gaste-os com a saúde e na educação dos filhos deles .Com homens sãos a quinta produzirá muito mais; e com homens a saberem muito, melhor será ainda .
Se hoje arrecada 1000 daqui a nada arrecadará 2000.

Claro que destes remédios não sentirá melhoras, amanhã já.
Há pois que de imediato tomar uma dose de cavalo. Assim :


Aos que não quiserem apanhar calo nas mãos ...que vão para outro sitio. Fica a poupar aí uns 500 dessa maralha ; (dos 800 só assume 300) , o que já não é mau,

mas fique com todos os que produzem e mande ás malvas aqueles que não prestam.

E olhe patrão .Desculpe lá mas sempre lhe digo :- o tempo não está para grandes férias. Se as meninas e meninos quiserem descansar dos estudos , há muito que fazer cá dentro e em sítios bem mais interessantes que esses resorts como eles dizem ,ou lá o que é isso , pois a quinta bem se pode transformar, se quiserem, num extraordinário chamadouro de visitas .E assim, para já, este ano , o Patrão abate logo 500 na despesa .
.........então. FAÇA LÁ AS CONTAS : diminuindo as despesas para 570+300 o que dá 870 un , vão pois crescer-lhe 130 un PARA O ANO.
O Défice não foi consolidado patrão ... ; FOI-SE .!!! Isso é que é o mais importante....;

E mais : para o próximo ano já vamos produzir mais e com as mesmas despesas.

QUE EU DE CONTAS não sou doutor , mas NÃO SOU BURRO .



- e olhe ; mais ainda : -se os que o trapaceiam nas taxas começarem a ter de pagar em proporção ao que levam- e vamos pôr o “MANEL DA EIRA” de olho neles , e já - talvez ainda p´ró ano pode ter mais qualquer “coisinha” .O que sobrar até vai dar para recuperar a vinha e , lá para diante ,até o palacete lá do norte volta. . Vai ver : - os anéis voltam...
Vá , vamos beber mais um copo e trincar mais um naco, que a gente cá em casa não tem défice : isto aqui, eu com a Maria , ou bóia ou não abóia.
Se abóia compram-se uns tarecos e umas leiras; se não abóia ficamos quedos á espera que pró ano melhor sorte haja . Nada de gastar o que a galinha no cu não tem...

Era tarde , pois a conversa prolongara-se noite dentro

- “Atão Jaquim” até amanhã e obrigado pela lição.; foi a melhor prenda de sapatinho que recebi na minha vida ,esta que tu me deste. Vou andando...

E eu c’a té que não acreditava no pai Natal...mas lá que o há ...há ...sei-o agora

Levantou-se saindo para o frio .Estava uma noite de luar esplêndido : lançou um olhar até bem longe ; a quinta nesta quietude plena , tinha agora, parecia-lhe , uma redobrada e inusitada beleza : inspirou profundamente o frio da noite que lhe trouxe o cheiro de uma terra fremente ,prometedora ,ansiosa para se abrir á semente .Entrou em casa e dirigiu-se ao telefone :

- É o meu caro expert , o sr dr economista?

Olhe : é para lhe dizer que fiquei hoje a perceber que o seu negócio são números e com eles , não resolvo pevide, empobreço alegremente .
Isto do défice , afinal ,é simples ; ou abóia ou não abóia:...o resto é conversa ...Até sempre, tenha uma boa noite...
Desligou e ouviu-se a si próprio ,
Amanhã isto vai começava a abóiar ...der por onde der ;rompa por onde rompa...


ALADINO