quarta-feira, novembro 24, 2004

ADEUS AVEIRO...ATÈ SEMPRE...

Não somos uma cidade ... somos uma treta ...




Na década de sessenta/setenta havia, é incontroverso existir já uma clara diferenciação estrutural no panorama urbano de Ílhavo, versus Aveiro.

Aveiro dava uns primeiros passos na consolidação de uma cidade com potencial atraente mas, também é certo, Ílhavo era então uma vila desenvolvida, com uma divisão equilibrada do produto económico (o que não era comum nesses tempos) sem a existência de notórias (para a época, claro...) bolsas de pobreza, com potencialidades anunciadas e até patentes, com curiosa e destacada vida comunitária salutarmente viva, mais agregada e mais dinâmica que a existente na cidade ali do lado.
Esse era o tempo em que tínhamos sincero e demonstrado orgulho, de ser e de nos afirmarmos um “ílhavo”

Cumpriam-se rituais na Vila com grande significado: havia o passeio público que se enchia após a missa dominical e se prolongava pelas tardes de Domingo: exibia-se no “trotoir” da época , uma sociedade mediana /alta, vistosa, em que uma juventude “pretensiosa” de afirmação, se misturava com outros extractos de mais adiantada idade num são e comungado convívio Social.
Tempo para se ver e ser visto; cumprimento aqui, saudação ali, catrapiscar de olhares marotos, agendamento de programa etc etc. Tempo bonito .

As tardes de domingo eram excepcionalmente preenchidas: passeio para cá e para lá, cinema, e quase sempre para a juventude ainda nada inquinada pelos ectasy’s e afins, um passo de dança pública, ora no Cinema Velho (a que por degradação se veio mais tarde apelidar de TEXAS), ora nos passatempos do ILLIABUM (sim do Illiabum !...) aonde acorria a juventude do burgo e forasteiros amigos, especialmente de Aveiro e/ou de Águeda, para são convívio (mesmo quando tudo não eram rosas...)

A Vila era excepcionalmente atraente; limpa, com um Jardim regularmente bem arranjado, florido ( sim então havia flores...no Henriquete Maia ...), o Mercado Municipal belíssimo, imponente, conferindo ao burgo um espaço de vivência de grande reparo aos que vinham até nós, e que muitos eram.

Nesse tempo bem difícil “fazia-se” cultura; a possível e a impossível O ILLIABUM (sim o ILLIABUM outra vez ), era um dos mais referenciados centros de oferta da mesma .Grandes figuras da Cultura portuguesa do tempo por lá passaram, lado a lado com grandes figuras de” ílhavos” de então: Desde os anos 20 que Ílhavo foi um cadinho onde se misturaram vivências múltiplas, se caldearam novas aprendizagens e onde se vertiam novas influências importadas do exterior; Ílhavo mantinha-se numa linha fronteira que não envergonhava, afirmando-se curiosa, assumindo algum destaque pela influência da geração de ouro, que se sentia ainda em sessenta.

Dito isto, poder-se-à afirmar, julgo que pacificamente, que a vida tinha à época, mais qualidade na Vila do que na Cidade, esta já um pouco descaracterizada com a absorção de novos imigrantes que iam chegando, e onde as novas Avenidas iam deslocalizando o centro da urbe.
Acresce por outro lado que a dispersão dos laços familiares e/ou afectivos, era mais solúvel na cidade, onde não tinham a mesma consistência e expressão de um todo sociológico ainda bem identificado na Terra dos “ílhavos”.

Hoje a situação mudou completamente, extremou-se ;

Aveiro arrancou com uma dinâmica de desenvolvimento fortíssima, imparável e consistente, estruturada, assumindo-se como um grande polo de devir: social, económico, do saber e da cultura; a Cidade expandiu-se em todos os sentidos, galgou decididamente suas muralhas ( caminho de ferro e os canais ) rompendo com o espartilho, captou o saber, abriu-se ao poder económico, arrastou-o, acolheu aquele que era bom e soube dizer não ao que gera conflitos ambientais (compreendendo bem a lição da Celulose) e disse-nos, definitiva e inexoravelmente, adeus. Aveiro foi para outras paragens. Resolveu e bem o seu paradigma urbano.

O que mais ressalta em Aveiro é que se tornou numa urbe muito bonita, sem dúvida atraente, com uma oferta de qualidade de vida excepcional. Creio mesmo poder dizer-se que a qualidade de vida é, em Aveiro, melhor que em outra qualquer cidade do País. E quem teve oportunidade de tanto ver, sabe que esta comparação não teme confronto com o que de melhor há, nesse sentido, por essa Europa fora.

A cidade cresceu de um modo equilibrado; rasgaram-se com vista larga novas avenidas, deu-se um sentido claro ao desenvolvimento, criaram-se novos e excepcionais centros, nasceram zonas de lazer cuidadas e (muito) apelativas; encaixou-se com mestria e genialidade o polo do saber permitindo-se que ele funcionasse como principal motor de desenvolvimento e centro de atracção Mesmo fisicamente, o centro do saber (Universidade de Aveiro) foi executado com grande qualidade (arquitetónica), nele se inserindo grandes referências da Arquitectura Portuguesa, o que serviu de referencial ao novo desenvolvimento urbano da cidade que me parece, indiscutivelmente, exprimir qualidade de monta.

Em cada mês, em cada dia, Aveiro surpreende-nos pela positiva; há intervenções que mudam de um modo “instantâneo” a cidade; agora mesmo, a obra do Canal de S. Roque vai mudar, vai deslocar de novo uma parte da Cidade, e o que ali vai ancorar vale bem o esforço de uma geração.

Erros urbanos graves, ofensas ao património, choques ambientais, destruição é coisa que não se vê com grande expressão em Aveiro (sem que isso signifique estar isenta...). Parece que de 70 para cá tudo foi feito segundo um plano integrado (este sim Director, porque mostrou o caminho, a direcção correcta a seguir), pensado como um todo e não produto desgarrado de intervenções pontuais avulsas e indiscriminadas, que como se vê exemplarmente no caso de Ílhavo, conduzem inevitavelmente (e vão exponenciar ) ao desastre.

Ilhavo parou no tempo.

Aqui e ali foi-se semeando este ou aquele equipamento. Vem um eleito e decide -O para aqui; Vem o outro e muda - O para ali; O Mercado ia aqui; depois foi para ali; a piscina projecta-se para aqui: vem o outro iluminado e diz : não !...vai para ali. Não tendo ideias novas, não sabendo responder como, para quê, e porquê... altera, só para criar a ideia, que foi com ele, que a mesma nasceu .“Pateguices” sucessivas geram desperdícios brutais que gangrenam o devir.

O necessário plano integrado capaz de “rasgar literalmente” a urbe, que a “ pusesse de bem com a Ria”, a gestão dos espaços e dos solos, o tratamento do pormenor, o alindamento dos mesmos, o aconchego do existente no respeito pelo histórico, tudo isso é que vem sendo sucessivamente postergado para as calendas; tudo isso deixou de fazer sentido em Ílhavo ..

Apenas de raspão:
Repare-se tão só no centro: o que existe ali é uma clara desertificação: Rua Direita, de Espinheiro, zonas anexas, Praça etc estão num completo abandono com as inevitáveis consequências .As pessoas fugiram; a vida naquelas zonas outrora marcantes deixou de aí, ter sentido. Repare-se como exemplo frustrante, o da tão badalada “ Garganta dos Amadores” . Com pompa e circunstância, unicamente para efeitos eleitorais nas vésperas das mesmas, verteram-se laudas de hossanas e promessas de todo o género e, custasse o que custasse, foi anunciada o seu fim e descrito com eflúvios de vã demagogia o plano (soberbo) da sua requalificação. O que nos é dado ver hoje, quatro anos passados ?... : - uma zona esventrada, horrivelmente abandonada com tapumes de lata a encobri-la, sem que se veja ou sinta, qualquer sentido de intervenção.
Ou então, para não ir mais longe, repare-se em todo o lado Norte da 25 Abril; é intolerável como se deixa chegar o mesmo a tal degradação; é chocante como se consente tal exibição no coração da urbe; simplesmente vergonhosa, degradante, um enxovalho, a situação que se patenteia aos olhos de todos.

Em contra ponto “ pretende-se semear” ali bem perto o dito Centro Cultural. Sem resolver o “cabedelo” que é o extremo da Rua de S. António; sem resolver a questão do prolongamento da Av. Mário Sacramento (estará na altura de mudar, penso eu de que, para Av. 24 de Abril ?...) para que o edifício dos passos do Concelho apareça em toda a sua plenitude e estética.

Passam-se gerações e nada muda; fala-se, volta-se a falar em planos e mais planos: cada mandato é uma diáspora,, uma nova ERA ; quem assume o poder logo anuncia a inversão dos planos anteriores, e logo promete novos que duram até que novo ailila chegue. Este volta a mudar ... a roda não pára...

Em Aveiro fez-se fazendo-se ...; em Ilhavo faz-se ... desfazendo-se ....Falta-nos tudo, mas já “anunciámos” o que se vai pôr abaixo, só porque outros o fizeram...
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Ilhavo meu amor... não te importes: eu mesmo assim gosto de Ti .
Tinhas de ser tão forte para resistires a tanta incompetência.

Todos temos consciência - até eles !... - da evidência deste retrocesso urbano.

Todas as boas consciências, estou certo, certificam a desistência;

Todas parecem, contudo, dar-se bem com esse ar de vencidos da vida.

Ninguém se iluda. .Que importa?!...

- ... Que venha outro cognac...pois então...



ALADINO